Pular para o conteúdo principal

DE CAPITU

 

Não me leias pelos olhos alheios,
nem pelo ciúme que escreve torto.
Sou a curva do tempo no quintal,
a maré que aprende a voltar sozinha.
 
Chamam-me dissimulada,
como se fosse crime pensar em silêncio.
Mas quem nasce mulher aprende cedo
que a verdade também se protege.
 
Meus olhos? São poços abertos:
não afogam, refletem.
Quem neles cai, cai de si mesmo
e chama de culpa o próprio peso.
 
Amei sem algemas,
ri sem pedir licença,
cresci enquanto me mediam
com réguas feitas de medo.
 
Se traí, foi a sentença;
se calei, foi para existir.
Nunca jurei ser espelho de ninguém,
fui rio, e rios não pedem perdão por correr.
 
Hoje me escrevem à margem,
mas sigo inteira no centro da dúvida.
Porque a história que não me ouviu,
ainda aprende a me ler.
 
Criado em: 7/1/2026 Autor: Flavyann Di Flaff

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

LOOP FARAÔNICO

  De um sonho decifrado ao pesadelo parafraseado. A capa que veste como uma luva se chama representatividade, e a muitos engana, porque a vista turva. Ao se tornar conveniente, perde toda humanidade. Os sete anos de fartura e os de miséria, antes, providência pedagógica, hoje mensagem ideológica, tornando o que era sério em pilhéria. A fartura e a miséria se prolongam, como em uma eterna praga sem nunca ter uma solução na boca de representantes que valem nada. O Divino dá a solução, e esses homens nada fazem, deixando o povo perecer num infinito sofrer, pois, basta representar, para fortunas obterem. E, assim, de dois em dois anos, os sete se repetem, como num loop infinito de fartura de enganos.   Criado em : 1/6/2025 Autor : Flavyann Di Flaff

ILUSIONISTA DO AMOR

  O amante é um ilusionista que coloca a atenção do outro no ponto menos interessante, levando o ser amado a se encantar com o desinteressante. Quando o amante se vai, o amado age como um apostador, que, diante da iminência da perda, se desespera e tenta recuperar o que já foi. Mas, ao invés de encontrar o amor perdido, encontra apenas o reflexo de sua própria carência, como quem busca ouro em espelhos quebrados. Restando, então, ao amado, o desafio de enfrentar o vazio, reconhecer a ilusão e descobrir, enfim, que o verdadeiro amor começa, quando cessa a necessidade de iludir ou de ser iludido. Criado em : 14/11/2024 Autor : Flavyann Di Flaff

SÉTIMO DIA

  Domingo, fim de tarde, periferia imersa na alienação do tempo livre – hora de lazer. Sentado à mesa, sorvendo o suor do labor diário, que, mais tarde, sairá na urina – Efemeridades do prazer! Observa o copo ainda suado, meio cheio, meio vazio, frações de uma percepção dúbia acerca de seu cotidiano, lampejos de uma reflexão existencial! Meio cheio está de sua inércia diante da vida, e meio vazio anda, depois que a melancolia o visitou certa vez, sem aviso prévio, aboletando-se como uma visita inesperada e indesejada. Finda tarde dominical, a mente e o corpo estafam, um humano, no sarcófago de Hipnos , agora jaz.   Criado em : 20/01/2024 Autor : Flavyann Di Flaff