Uma pergunta o quis
perturbar, mas ele preferiu direcionar suas energias para a certeza do dia a
dia, em vez de se deixar consumir pela dúvida de uma longevidade improvável
daquilo que vivenciava. Assim, decidiu aproveitar ao máximo cada dia na
companhia daquele ser.
Tinha ciência de que não se
apaixonava facilmente, e isso muito o incomodava; afinal, após tantas relações
vividas, sabia que tal resistência poderia interferir fortemente na duração de
relacionamentos futuros. A dificuldade em se envolver causava-lhe um rápido
enfado em relação ao que já não era novidade e, desse modo, já não despertava o
mesmo desejo de outrora.
Como não pretendia ser
previsivelmente repetitivo em seu comportamento, travava uma luta diária
consigo mesmo. Ao mesmo tempo, tentava seguir desfrutando dos momentos com a
nova companhia. Para tanto, traçara uma audaciosa estratégia: dar intervalos
longos entre os encontros, fazendo com que o desejo não se esvaísse tão
rapidamente e o levasse a desgostar de tudo.
Odiava a frieza que surgia toda vez que o desejo se escondia, já que, muitas vezes, ainda continuava a querer estar com a outra pessoa. Entretanto, por não permitir a criação de vínculos afetivos, o sentimento logo cessava, sem deixar nenhum resquício em seu ser. Não era raro, com a chegada da primavera, comparar-se à beleza fugaz dos ipês que, nessa época, deixavam-se florir. De tão belas, suas flores a todos encantavam; porém, o encanto logo sumia. Em um curto espaço de tempo, elas murchavam e caíam, deixando, naqueles que as admiraram, apenas as lembranças de um belo e recente momento vivido.
Criado em: 24/4/2010 Autor: Flavyann Di Flaff

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