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Mostrando postagens de agosto, 2026

PANDORA DIGITAL

A tecnologia tal qual a lebre tornou ágil e veloz o ritmo da nossa existência. Aguçou os nossos sentidos, deixando-nos em estado de alerta – comportamento de caçado. A perda do tempo biológico nos transformou em replicantes da vida que tínhamos, e dependentes dos representantes da praticidade e da comodidade – males da Modernidade. Parece que a nossa esperança de salvação ficou presa na caixa de Pandora ad infinitum .   Criado em : 27/8/2026 Autor : Flavyann Di Flaff  

DESTINO FADADO

Eu, homo sapiens classicus , inapto a este mundo atomizado onde se cobra produtividade a todo instante, sem selo de qualidade, para não ser o homem que virou suco, tenho que me converter na laranja mecânica. Solução inócua para o esmagamento social promovido por um sistema que, apesar de desumano, alicia grande parte da humanidade. O que fazer? Para onde fugir? Se esse grande irmão se faz onipresente, onisciente e onipotente e a tudo e todos instrumentaliza. Pelo visto, sucumbirei, sendo minoria, diante da vontade coercitiva da esmagadora maioria.   Criado em : 27/8/2026 Autor : Flavyann Di Flaff  

A ILUSÃO DA CAUSA

  Sem poder negar a sua origem e incomodado com o peso dessa influência, resolveu, num arroubo, contrariar o pátrio poder. Vestiu a camisa da retórica de Caifás e tornou-se literalmente um cordeiro. Começou a obedecer ao Sinédrio e as suas tradicionais leis, sem nada mais questionar. Assim, desfez-se da imagem impopular de agitador, acalmando os receios daqueles que o cooptaram. Mas a vida pacata de submisso não o agradou e, nessa ocasião, conheceu Simão, um zelador passional das antigas leis. Ele defendia uma teocracia radical, na qual o seu idealizado deus era soberano, por isso, sempre agia de forma beligerante para com quem confrontasse a sua ideologia. E, assim, com essa retórica de guerreiro sempre pronto para a batalha, aliciou o confuso jovem para a sua legítima causa. Filiado, logo foi alçado a líder de um pequeno grupo armado, cuja missão era a de impor o código moral do idealizado governo teocrático. Dessa forma, fez do seu povo refém do medo e impotente diante da reco...

TECNOLÓGICA TESSITURA

A tecnologia precarizou o ofício de escrevinhador, tirando, de suas mãos, a essência de seu labor, convertendo a licença poética em discurso proselitista, defesa do consumo imediatista de conteúdos – fisiologismo por likes, comentários e engajamentos. Com isso, erra-se por falta de zelo, enfraquece-se a trama escrita, desvaloriza-se a obra produzida. Corre o escrevinhador, acelera a tessitura, atropelando o enredo, só para exibir novo post numa grande exposição de egos.   Criado em : 26/8/2026 Autor : Flavyann Di Flaff  

POESIA COLHIDA

Não se inventa ou se descobre poesia. Ela é colhida nos pés de fruta madura na beira da estrada, basta ter fome e olhos bem atentos no caminhar para vê-la. Porque, às vezes, ela se esconde por entre o mato seco da criatividade, tal qual arribação que, ao menor ruído, voa para bem longe, fugindo de um possível predador. Poema é o retrato de um fantástico pôr-do-sol, poesia é o sentimento que essa atmosfera desperta. Neste mundo metonímico, onde uma só palavra já entrega tudo na lata – leite condensado numa latinha –, a metáfora, caixinha de música, é mais que necessária, porque, para descobrir a melodia expressada com precisão, faz-se necessário acionar a frágil manivela, dar cordas diversas e ouvir os sutis acordes com aguçada atenção. A poesia é mestra na arte da provocação. Quem dela usufrui, desperta para a realidade. Quem a produz, doa chuvas de sabedoria. Portanto, caminhante, observe atentamente o seu caminho ao caminhar, quem sabe visualize uma poesia madura, pronta para ser...

HUMANIARA

Conheci uma Iara, longe de ser um ser fabulosus , possuía lá os seus encantos. Não estavam em sua voz que, de tão normal, não soava tão angelical; não estavam em seus olhos que, negros como a asa da graúna , ainda assim, não se igualavam aos de Atena; não estavam em sua face, que possuía traços harmoniosos, mas não se comparava à de Vênus. Com aspecto escultural, estilo Classicismo Grego, sua beleza corporal era persuasiva e encantadora, a ponto de desestabilizar qualquer pathos . Se não era uma criatura mitológica, era um ser humano raro de fato.   Criado em : 25/8/2026 Autor : Flavyann Di Flaff  

IDA

Ela chegou compassiva, estendendo a mão num gesto compreensivo, insinuando promessas resolutivas de salvação, convidou-a a segui-la num último gesto de fé e, depois disso, ninguém mais as viu. Os mais próximos dizem que ela se foi por livre vontade – entregou-se. Os médicos, que ela sucumbiu à inanição. Os psicólogos, que ela não resistiu à depressão. Os religiosos intolerantes, que ela foi enfeitiçada. Por fim, o que se sabe é que ela se partiu em mil pedaços e nunca mais se refez. Qualquer que seja a versão do porquê da partida, nada justifica a abreviação de uma existência. Porém, Aquela que veio buscá-la, só necessita de uma mera explicação para justificar a sua inerente ação. E, assim, ela se foi, sem nem se despedir dos seus.   Criado em : 25/8/2026 Autor : Flavyann Di Flaff  

O LEGALISTA

João Bancamorte, incomodado, decide analisar o porquê de tanta criminalidade em sua cidade. Ao verificar que havia um padrão no modus operandi do crime, resolveu construir uma prisão – a primeira de muitas –, a qual denominou Casa de Detenção Verde e Amarela. No início, prendia quem infringisse o Código Penal vigente, seguindo o rigor do sistema judiciário. Com o tempo e o fluxo recorrente de prisões, o local já não comportava o crescente número de detentos. Apesar disso, Bancamorte insistia no encarceramento em massa. Sua ação era embasada por uma flexibilização do ordenamento jurídico promovida por sua própria visão legalista; ele passou a inserir leis de autoria própria no sistema, com o único intuito de dar um ar de legalidade à captura daqueles que confrontavam seu populismo penal, reforçando sua postura beligerante. Eventualmente, João percebeu que a população carcerária não era composta apenas por marginalizados, mas por todas as camadas da sociedade – inclusive por pessoas...

OFUSCADO

Quem olha diretamente para a luz do conhecimento e se vê, de repente, cego, costuma enaltecer a ignorância por ver as suas crenças ameaçadas. Sem refletir, não consegue discernir, saber o porquê de sua visão ter sido afetada. Mas basta uma faísca de sabedoria para que tome consciência de que aquele que cega diante da luz é porque sempre viveu no obscurantismo. Cabe, então, a cada um de nós, valorizar o esforço daquele que não prometeu, e trouxe do Olimpo e nos deu o fogo sagrado.   Criado em : 23/8/2026 Autor : Flavyann Di Flaff  

A CONSCIÊNCIA DE SI

Depois de um dia cansativo, o corpo suplica o descanso dos justos. Ao ceder, sem resistência, a Morfeu, o mundo onírico se faz hegemônico. “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. E, havendo ouvido isto, questionou, refletiu e discerniu: "eles sabem muito bem o que fazem, mas, ainda assim, o fazem". E o povo continuou olhando-o, zombando-o, apontando-o, julgando-o e condenando-o, via-se explicitamente o prazer por trás de tais ações – fruto de um desejo visceral. Naquele lugar, naquele presente momento, não se via inocência nos atos cometidos. Em cima dele, estava um título, escrito em letras garrafais: ESTE É O INIMIGO DO POVO. Este sabe muito bem que essa pecha é apenas uma narrativa conveniente que se deteriora ao menor sinal de um bom argumento, no entanto, socialmente, abstrai-se dessa característica finita e a trata como uma substância com uma essência permanente, alguma qualidade transcendente infinita – como se, na realidade, ela tivesse algum valor moral. ...

FACISNAÇÃO

  O ministro da eucaristia, com sua mão pesada, fez, seu reino, da sacristia, sentindo-se um verdadeiro Ministro de Estado de um governo que elegeu – ilusão de importância. Com receio de sua desimportância, descumpriu velhos mandamentos na vã tentativa de fugir da vulnerabilidade. E com o poder emprestado pela instituição, seguiu protocolos sem questionar. Despersonalizou os outros, tratando-os como inimigos mortais. Assim, desrespeitando os seus limites morais, corrompeu o seu próprio caráter em favorecimento de uma dominação disfarçada de poder – mero vestígio de facisnação.   Criado em : 23/8/2026 Autor : Flavyann Di Flaff

EDUCAÇÃO: ENTRE O SER, O TER E O SENTIDO DE APRENDER

  Muitos jovens da nova geração questionam o valor da educação, invertendo a ordem da pergunta: em vez de “por quê?”, perguntam “para que estudar?”. Talvez, persuadidos pelo canto da sereia da tecnologia, pensem que apenas dominá-la já lhes garante não somente o sustento, mas também uma vida de riqueza material. Tal pensamento é fruto de uma cultura materialista, na qual o ter vem antes e vale mais do que o ser; em outras palavras, a posse de bens passa a ser compreendida como garantia de domínio sobre as diferentes áreas que regem a vida cotidiana. Essa geração, antes de simplesmente reproduzir a narrativa utilitarista da obsolescência da educação como meio de garantir o futuro, deveria procurar saber, conhecer e compreender como a sociedade funciona para aqueles que possuem estudo e para aqueles que não o possuem. Afinal, previsibilidade, segurança e controle não fazem parte do vocabulário da vida. A educação, portanto, não deveria ser compreendida apenas como instrumento para ...

O OFÍCIO DO TRAÇO

Enquanto alguns expõem a beleza logo de cara – dom inato –, lapido a pedra bruta para extrair a perfeição – labor de escrevinhador. Com a caneta como cinzel, talho a rocha para o melhor traço, palavra certa para o encaixe perfeito, metáfora rica para dar o nobre efeito. Feito o digno trabalho, encanta a outrora pedra bruta, agora gema preciosa, o olho do curioso leitor – fruto do cuidadoso lapidar do escrevinhador.   Criado em : 22/8/2026 Autor : Flavyann Di Flaff  

ANATOMIA DO PRECONCEITO

Hetero alfa hatero hater homofóbico misógino   Flavyann Di Flaff 21 VIII 26

ESPELHADO

Nas profundezas do ser, aprisionou as suas sombras. Sentiu-se leve, seguiu a vida. No cotidiano, por mesquinharias, apontava o dedo, esbravejava – ações que naturalizou sem refletir. Tudo o que lhe era alheio parecia imoral, ilegal ou inadequado. Na escuridão abissal da prisão interior, fervilhava a sua persona non grata , que pensava tê-la contido para sempre. Porém, indiferente, não percebeu os sinais e, por entre as suas fissuras comportamentais, as sombras já se manifestavam sem pudor. Quando percebeu, já não as podia conter e, assim, viu, no outro, toda a sua escuridão exposta.   Criado em : 20/8/2026 Autor : Flavyann Di Flaff

GÊNESE REVERSA

Ideias religiosas também são fruto de contextos culturais, políticos e sociais. Assim, das pedras da segunda queda, construíram templos moldados à imagem de suas próprias fraturas, em vez de à imagem do sagrado, e depois de muito clamor, o Velho deus ressuscitou. Ao ver os seus devotos, a todos fulminou, por não os ver dignos. E se vendo customizado, sentiu-se subalterno a eles. Afinal, ele é o deus primevo, representante da lei, da justiça e senhor da guerra; quem a ele não se prostrar, logo será fulminado.   Criado em : 18/8/2026 Autor : Flavyann Di Flaff

VIA CRUCIS DO ANTI-HERÓI

Em três estações temporãs, fez-se o mito do salvador. Na primeira estação, atrair seguidores para seu intento foi mera questão de oportunismo, já que a plebe era de frustrados e ressentidos à procura de personagens que a resgatasse. Para isso, bastou ao candidato estes dois atos: Vestir-se de redentor e criar um inimigo. Feito isso, seguiu-se a segunda estação. Forjando uma tentativa de execução, que a muitos emocionou e convenceu, fundamentou a trajetória do mito. Por fim, na terceira estação, deu o golpe derradeiro, inspirado nos Zelotes, ansiou o poder. Fracassando, pelo Estado, foi julgado e condenado, sucumbindo aos anseios de seu ego megalomaníaco. Assim, criou-se a trajetória, instituiu-se o rito, forjou-se a via crucis do mitomaníaco.   Criado em : 18/8/2026 Autor : Flavyann Di Flaff  

ONISAUDADE

Toda vez que me lembro de quanto tempo esperei por você me dá uma melancolia imensa. Toda uma existência expressa em expectativas presentes em cada ação realizada. Apareceu em meus sonhos, nas canções que ouvi, nos aromas que senti, sem nunca se materializar. Por que essa onipresença, se você não faria parte de minha vida? Hoje, sou só nostalgia do que não fomos!   Criado em : 14/8/2026 Autor : Flavyann Di Flaff  

RELIGIOSOS

O mundo é um templo repleto de escolhidos. Basta olharmos ao redor que logo os identificamos por seus legítimos méritos. O que joga lixo indiscriminadamente; o que fura a fila cinicamente; o que trata o outro soberbamente; o que só fala de si, sem escutar o outro; o que finge dormir para não ceder o lugar; o que estaciona na vaga de idoso; o que sempre dá um jeito de se dar bem; o que fala alto para não ter que escutar o outro; o que impõe branquitude sobre a negritude; o que confunde posses com valores; o que corta caminho, só para estar sempre na frente; o que pensa ter mais direito que dever. Na verdade, o mundo é para todos, mas essa universalidade necessita de prática. Assim, deixemos a retórica religiosa e sejamos mais efetivos na humanidade.   Criado em : 14/8/2026 Autor : Flavyann Di Flaff  

SUICIDA

Nem sempre o mal se apresenta feio como tanto se fala, às vezes, veste-se de brincadeira. A criança prende a respiração na vã tentativa de sumir, porém os pulmões gritam pelo viver. É como querer cortar os pulsos com um barbeador elétrico, no fundo, a vida fala mais alto.   Criado em : 13/8/2026 Autor : Flavyann Di Flaff  

REIFICAÇÃO DO SER

  O mundo é das massas! A Política, a Religião, a Indústria, o Comércio, o Consumo, a Catarse, a Alienação, o Genocídio. Porque o indivíduo, nesse mundo, é substituível.   Criado em : 12/8/2026 Autor : Flavyann Di Flaff

DO CENÁRIO POLÍTICO

A política sempre se revelou como sendo palco da dissimulação e os políticos como grandes atores. Tamanha era a encenação, que só alguns eleitores com discernimento suspeitavam tratar-se de puro espetáculo. Com o passar do tempo e o abandono do pensar, o cenário político se escancarou, a qualidade duvidosa e as situações farsescas não mais foram escondidas do povo, tornaram-se a marca registrada de uma política descompromissada com as crescentes demandas de um país carente de soluções. Hoje, o culto à personalidade nos remete ao campo artístico, em que atores e atrizes eram deuses. Nas atuais polichanchadas, os agentes são caricaturas do bom-senso, com milhões de ceguidores a celebrar cada palavra e gesto encenados, sem questionar, refletir e discernir. Assim, a política foi reduzida a berros intimidadores e a ações ameaçadoras.   Criado em : 10/8/2026 Autor : Flavyann Di Flaff  

CEGUIDORES

Como um loop infinito, o Algoritmo nos manda escolher o que ou a quem nos é rei, bedel e juiz, uma vez que, por essa lei, somos obrigados a interagir. Não há espaço para o conhecimento profundo, o questionamento e o discernimento que libertam, só a ignorância é que impera no (ir)real. Imperando-a, quem impedirá a hegemonia das emoções e impulsos mais instintivos do ser humano nesse ambiente dual? Assim, a irracionalidade cega quem segue os manipuladores das massas tomadas pelo ressentimento.   Criado em : 9/8/2026 Autor : Flavyann Di Flaff  

SOB AS CONCHAS DA EXISTÊNCIA

Ao escrever, expomos os males do mundo, convertendo-os em barro, prontos para a transformação. Somos frágeis aedos , quando ignoramos nossas origens e adotamos referências alheias, só para sermos aceitos. A exposição é inevitável, quando desnudamos a perfeição mundana, e para nos mantermos fortes, devemos carregar toda a nossa história como proteção ao que nos é externo – paguros no vasto mar da existência.   Criado em : 9/8/2026 Autor : Flavyann Di Flaff  

PAI

Nos silêncios, amor sem discurso; nas prioridades, demonstração de afeto; no rosto sempre altivo, cansaço contido; no semblante sereno, lágrimas reprimidas; nos momentos de disciplina, testemunhos de zelo; na economia doméstica, um cuidado latente; no olhar sério, proteção presente. Assim, agia a figura paterna presente durante quatro décadas de minha vida. Celebrá-la é reconhecer o valor de quem sempre valorizou a família a seu tempo e modo.   Criado em : 9/8/2026 Autor : Flavyann Di Flaff

A JORNADA DA PALAVRA CANTADA

O homem sempre buscou a si mesmo, não só para se conhecer, mas também para obter controle sobre a sua natureza dual. No início, quis a perfeição para si, buscou na estética, simetria e racionalidade o caminho para domar suas emoções e seus impulsos, sem obter êxito a longo prazo. Classicismo / Renascimento; Barroco; Arcadismo / Neoclassicismo; Parnasianismo; Simbolismo, mas a ausência de uma essência primordial gritava e consumia a sua alma. Romantismo, Modernismo, foi assim que o hermetismo literário foi rompido, deu-se o devido valor às palavras, rompendo a superficialidade – moldura fixa da perfeição construída – mergulhando fundo nos sentidos e significados.   Criado em : 9/8/2026 Autor : Flavyann Di Flaff  

UM DIA BANAL

Num certo dia, a existência silenciou e foi saindo aos poucos. O dia não escureceu, a comida não perdeu o sabor, os sons urbanos soavam, as pessoas conhecidas existiam, o mundo seguia seu ritmo, enfim, não houve nada de incomum. Então, foi assim, sem cerimônias, simplesmente numa fala profissional, mansa, pausada, honesta: “Restam-lhe seis meses”.   Criado em : 6/8/2026 Autor : Flavyann Di Flaff