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A ILUSÃO DA CAUSA

  Sem poder negar a sua origem e incomodado com o peso dessa influência, resolveu, num arroubo, contrariar o pátrio poder. Vestiu a camisa da retórica de Caifás e tornou-se literalmente um cordeiro. Começou a obedecer ao Sinédrio e as suas tradicionais leis, sem nada mais questionar. Assim, desfez-se da imagem impopular de agitador, acalmando os receios daqueles que o cooptaram. Mas a vida pacata de submisso não o agradou e, nessa ocasião, conheceu Simão, um zelador passional das antigas leis. Ele defendia uma teocracia radical, na qual o seu idealizado deus era soberano, por isso, sempre agia de forma beligerante para com quem confrontasse a sua ideologia. E, assim, com essa retórica de guerreiro sempre pronto para a batalha, aliciou o confuso jovem para a sua legítima causa. Filiado, logo foi alçado a líder de um pequeno grupo armado, cuja missão era a de impor o código moral do idealizado governo teocrático. Dessa forma, fez do seu povo refém do medo e impotente diante da reco...
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TECNOLÓGICA TESSITURA

A tecnologia precarizou o ofício de escrevinhador, tirando, de suas mãos, a essência de seu labor, convertendo a licença poética em discurso proselitista, defesa do consumo imediatista de conteúdos – fisiologismo por likes, comentários e engajamentos. Com isso, erra-se por falta de zelo, enfraquece-se a trama escrita, desvaloriza-se a obra produzida. Corre o escrevinhador, acelera a tessitura, atropelando o enredo, só para exibir novo post numa grande exposição de egos.   Criado em : 26/8/2026 Autor : Flavyann Di Flaff  

POESIA COLHIDA

Não se inventa ou se descobre poesia. Ela é colhida nos pés de fruta madura na beira da estrada, basta ter fome e olhos bem atentos no caminhar para vê-la. Porque, às vezes, ela se esconde por entre o mato seco da criatividade, tal qual arribação que, ao menor ruído, voa para bem longe, fugindo de um possível predador. Poema é o retrato de um fantástico pôr-do-sol, poesia é o sentimento que essa atmosfera desperta. Neste mundo metonímico, onde uma só palavra já entrega tudo na lata – leite condensado numa latinha –, a metáfora, caixinha de música, é mais que necessária, porque, para descobrir a melodia expressada com precisão, faz-se necessário acionar a frágil manivela, dar cordas diversas e ouvir os sutis acordes com aguçada atenção. A poesia é mestra na arte da provocação. Quem dela usufrui, desperta para a realidade. Quem a produz, doa chuvas de sabedoria. Portanto, caminhante, observe atentamente o seu caminho ao caminhar, quem sabe visualize uma poesia madura, pronta para ser...

HUMANIARA

Conheci uma Iara, longe de ser um ser fabulosus , possuía lá os seus encantos. Não estavam em sua voz que, de tão normal, não soava tão angelical; não estavam em seus olhos que, negros como a asa da graúna , ainda assim, não se igualavam aos de Atena; não estavam em sua face, que possuía traços harmoniosos, mas não se comparava à de Vênus. Com aspecto escultural, estilo Classicismo Grego, sua beleza corporal era persuasiva e encantadora, a ponto de desestabilizar qualquer pathos . Se não era uma criatura mitológica, era um ser humano raro de fato.   Criado em : 25/8/2026 Autor : Flavyann Di Flaff  

IDA

Ela chegou compassiva, estendendo a mão num gesto compreensivo, insinuando promessas resolutivas de salvação, convidou-a a segui-la num último gesto de fé e, depois disso, ninguém mais as viu. Os mais próximos dizem que ela se foi por livre vontade – entregou-se. Os médicos, que ela sucumbiu à inanição. Os psicólogos, que ela não resistiu à depressão. Os religiosos intolerantes, que ela foi enfeitiçada. Por fim, o que se sabe é que ela se partiu em mil pedaços e nunca mais se refez. Qualquer que seja a versão do porquê da partida, nada justifica a abreviação de uma existência. Porém, Aquela que veio buscá-la, só necessita de uma mera explicação para justificar a sua inerente ação. E, assim, ela se foi, sem nem se despedir dos seus.   Criado em : 25/8/2026 Autor : Flavyann Di Flaff  

O LEGALISTA

João Bancamorte, incomodado, decide analisar o porquê de tanta criminalidade em sua cidade. Ao verificar que havia um padrão no modus operandi do crime, resolveu construir uma prisão – a primeira de muitas –, a qual denominou Casa de Detenção Verde e Amarela. No início, prendia quem infringisse o Código Penal vigente, seguindo o rigor do sistema judiciário. Com o tempo e o fluxo recorrente de prisões, o local já não comportava o crescente número de detentos. Apesar disso, Bancamorte insistia no encarceramento em massa. Sua ação era embasada por uma flexibilização do ordenamento jurídico promovida por sua própria visão legalista; ele passou a inserir leis de autoria própria no sistema, com o único intuito de dar um ar de legalidade à captura daqueles que confrontavam seu populismo penal, reforçando sua postura beligerante. Eventualmente, João percebeu que a população carcerária não era composta apenas por marginalizados, mas por todas as camadas da sociedade – inclusive por pessoas...

OFUSCADO

Quem olha diretamente para a luz do conhecimento e se vê, de repente, cego, costuma enaltecer a ignorância por ver as suas crenças ameaçadas. Sem refletir, não consegue discernir, saber o porquê de sua visão ter sido afetada. Mas basta uma faísca de sabedoria para que tome consciência de que aquele que cega diante da luz é porque sempre viveu no obscurantismo. Cabe, então, a cada um de nós, valorizar o esforço daquele que não prometeu, e trouxe do Olimpo e nos deu o fogo sagrado.   Criado em : 23/8/2026 Autor : Flavyann Di Flaff