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PERCEPÇÃO MATERNA

Os poucos que me veem, só me percebem pela utilidade ou pela retribuição do agrado, ou pelo prazer dividido.   Quando falo, poucos são os que me ouvem, captam só a superfície. Por isso, para este mundo, sou apenas sombra do que de fato aparento.   Mas houve alguém que me escutava por inteiro, mesmo antes de vir a este mundo. Reconhecia a minha voz, mesmo quando ela tremia ao tentar ser forte. Percebia o meu silenciar diferente, quando estava a lhe falar ao telefone. Na minha resposta curta demais, sentia que algo estranho ocorria. Reconhecia quando o “tá tudo bem” saía apertado, quase sem expressão. Pressentia quando eu tentava, em vão, poupar todos da minha angústia. Atendia, quando eu não queria conversa, o pedido de colo expresso em meu rosto. E esse alguém era você, mãe, que me enxergou, me ouviu e me sentiu muito antes de todo o mundo.   Porque todo ser humano, em algum momento, quer ser reconhecido sem ter muito que explicar, sem ter que demonstrar desempenho. Simpl...
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SOB AS LENTES DO VIVER

De braços abertos, lançou-se sob o globo ocular que, pela máquina fotográfica, lhe via – momento eternizado. Enquanto o Cristo, também de braços abertos, em segundo plano, a todos, lança a salvação.   O salto foi no vão, espaço-tempo entre um piscar de olhos e o enquadramento da paisagem. Mas não foi em vão, porque, do voo antinatural, Ícaro pós-moderno, nasceu nova oportunidade.   Como criança recém-nascida, retornou ao mundo. Assim, o passado foi reverenciado para promover a ressignificação – trampolim para uma vida revista.   Criado em : 10/5/2026 Autor : Flavyann Di Flaff

MÃE DE VITRINE

  Apesar de tantos presentes, há uma profunda ausência: A presença do sentimento verdadeiro.   Apesar desse imenso luto, muitos exibem o fruto de seu lucro, insensíveis bibelôs que para nada servem, a não ser demonstrar uma ostentação paga em módicas prestações infinitas.   Assim, aquele sentimento verdadeiro torna-se ornamento anacrônico, um camafeu jogado no fundo do baú de alguns corações frios e ególatras. E a madre, no seu dia, mesmo viva, vai tornando-se objeto temático de uma época em que a vida era vivida coletiva e harmoniosamente.   Criado em : 8/5/2026 Autor : Flavyann Di Flaff

MAR VERDE

Naquele imenso mar verde, eu me deixei levar pelo canto de sereia. Iludido, mergulhei naquela alienação laboral, como se ela fosse o único meio de sair da miséria.   Naquele imenso mar verde, tudo me prendia àquele lugar. Era a dívida na venda, que crescia feito tumor maligno, alimentando-se de sangue e suor; era a necessidade de sobreviver que me mantinha alheio à realidade.   A cana, que adoçava minhas lágrimas, era a mesma que, etílica, afogava as minhas mágoas.   Naquele imenso mar verde, que das águas nem cheiro emanava, fiz zunir o facão que a tudo decepava – fúria sublimada em cortes precisos. E, assim, o mês é contado em toneladas, enquanto a vida é mortalmente fracionada.   Criado em : 4/5/2026 Autor : Flavyann Di Flaff  

O PORÃO DA ALMA

De repente, a maturidade! Somos alçados a seres responsáveis, como se as consequências fossem meros acessórios daquele virtuoso patamar, assumindo-os e expondo-os no passeio público como símbolos da beleza de ser um humano valoroso.   Mas, às vezes, diferente de tudo, não antes, porém depois, vem a infância e abala a madura estrutura, revelando-nos as rachaduras do que pensávamos inabalável.   Então, em um átimo, as nossas fragilidades são expostas, cai o escudo, rasga-se a máscara, e nos descobrimos crianças feridas, escondidas nos porões da alma.   Criado em : 1/5/2026 Autor : Flavyann Di Flaff

JOGO DO PODER

  Ganhar ou perder, faz parte do jogo. Isso não implica em mudanças efetivas na situação política em que vivemos. O mais certo de ocorrer é a mudança de comando e, consequentemente, das regras que regem o jogo. Porque se o jogo é bom, quem ocupa a direção quer os lucros só para si e para seu grupo, sem nunca os universalizar. É a regulamentação do lema “Brasil, Eu Te Sacaneio”, sempre em nome do bem de todos e felicidade geral da nação. A grande massa de eleitores, cidadãos comuns, comportam-se constantemente como pássaros recém-nascidos, ou seja, como incapazes de se alimentar por conta própria, atuando, de forma pessoal, questionando e discernindo, na digestão dos acontecimentos que lhes são narrados por outros. Talvez por ignorância ou por conveniência, preferem digerir o que é regurgitado por quem não lhes têm verdadeira preocupação, só um profundo interesse descartável. E, assim, segue a vida encenada, nunca vivida de fato, sob a máscara interpretativa do senhor e do escra...

FRONTEIRA DA INDIGNAÇÃO

Em um mundo que nos convida à loucura desagradável, deparo-me com uma fronteira lúdica entre o viver artificial e o natural.   Vejo casinhas sobre a rua impermeabilizada, enquanto, do outro lado, barrenta estrada. Rodeadas por um céu anil com ares solares, refugio-me sob a sombra de verdejantes árvores.   Nesse mundinho que replica o urbano, a fronteira revela o rural, com aquele, se indignando.   Assim, entre um e outro, vai a humanidade se revezando, perdendo-se em um, encontrando-se noutro.   Criado em : 30/4/2026 Autor : Flavyann Di Flaff