O que se observa, em diversos contextos políticos
contemporâneos, não é propriamente um compromisso institucional com o
enfrentamento estrutural dos desmandos na gestão pública, mas a sua
espetacularização estratégica. Denúncias que deveriam ensejar apuração técnica,
responsabilidade jurídica e aperfeiçoamento institucional tornam-se
instrumentos de disputa política. O escândalo passa a valer mais do que a
solução.
A espetacularização converte o processo jurídico em
espetáculo midiático. Ao invés de fortalecer o devido processo legal e a
transparência administrativa, promove-se a exposição pública seletiva,
frequentemente orientada por interesses circunstanciais. O objetivo não é sanar
irregularidades, mas desgastar reputações, corroer capital político e produzir
efeitos eleitorais imediatos. Nesse contexto, a lógica da justiça é substituída
pela lógica da performance.
Essa dinâmica caracteriza o fenômeno conhecido como lawfare:
o uso estratégico do aparato jurídico como arma política. Ao instrumentalizar
investigações e procedimentos legais para fins de disputa de poder, esvazia-se
o sentido republicano do combate à corrupção e fragiliza-se a confiança social
nas instituições. O combate aos ilícitos deixa de ser política de Estado e
passa a operar como ferramenta de alternância oportunista no poder, muitas
vezes perpetuando, sob novos protagonistas, os mesmos esquemas que se dizia
combater.
Quanto ao Ministério Público, sua atuação encontra
limites constitucionais e legais. Embora detenha conhecimento técnico e
experiência investigativa acerca da existência de práticas ilícitas
recorrentes, sua intervenção depende de provocação formal ou da instauração de
procedimentos dentro das balizas normativas. Não raramente, a mobilização
institucional intensifica-se em períodos pré-eleitorais ou eleitorais, quando
interesses políticos tornam determinadas denúncias mais “convenientes” à
disputa pública. Tal circunstância contribui para a percepção de seletividade e
reforça a leitura de que o sistema jurídico pode ser instrumentalizado.
As consequências desse processo são graves: erosão da credibilidade institucional, banalização das acusações de corrupção, polarização social e enfraquecimento do Estado Democrático de Direito. Quando o direito deixa de ser garantia e passa a ser arma, perde-se não apenas a estabilidade política, mas também a própria confiança no pacto democrático.
Criado
em: 28/2/2026 Autor: Flavyann Di Flaff

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