O voto, há muito
tempo, opera como um viés de confirmação da submissão coercitiva das massas à
classe política, que sustenta deliberadamente um estado permanente de
sobrevivência. Tal estratégia tem por objetivo impedir que o povo se indigne
diante dos desmandos dessa mesma elite, desviando sua revolta para a narrativa
manipuladora do “nós contra eles”.
Quem luta
cotidianamente para sobreviver não dispõe de forças materiais, emocionais ou
simbólicas para investir em uma mudança estrutural que nunca chega. Isso se
deve ao fato de não deter qualquer controle real sobre o sistema que o governa;
resta-lhe apenas o papel de mais uma engrenagem da máquina que o oprime de
forma contínua e silenciosa.
Silenciar diante da
denúncia da rapinagem praticada pela classe político-oligárquica é reconhecer a
própria impotência. Omitir-se, por sua vez, revela uma conivência subserviente,
ainda que travestida de neutralidade. Trata-se de assumir, conscientemente ou
não, a individualidade arrogante do modo de sobrevivência que nos é imposto
como norma social.
Esse estado
permanente de sobrevivência nos brutaliza e, progressivamente desumanizados,
passamos a agir de modo instintivo, sem consciência crítica e sem
questionamento. Tornamo-nos conformistas, reproduzindo o próprio ciclo de
opressão ao legitimar, pela (r)eleição, aqueles que nos envenenam lentamente.
Assim, de nada
adianta a revolta quando ela se reduz à emoção destemperada, pois a
passionalidade por ideologias e personalidades conduz à dominação
instrumentalizada, sem produzir qualquer transformação efetiva. A revolta,
nesses termos, não rompe o sistema: é absorvida por ele. Todo movimento que se
limita a reagir ao sistema acaba, paradoxalmente, por alimentá-lo.
Resta, então, a questão que inquieta e desloca: ainda é possível reinventar aquilo que nos captura antes mesmo de termos consciência de sua lógica? Ou toda tentativa de mudança já nasce contida nos limites do próprio mecanismo que pretende superar?
Criado em: 5/2/2026 Autor: Flavyann
Di Flaff

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