Pular para o conteúdo principal

VOTO COMO ENGRENAGEM DE SUBMISSÃO

 

O voto, há muito tempo, opera como um viés de confirmação da submissão coercitiva das massas à classe política, que sustenta deliberadamente um estado permanente de sobrevivência. Tal estratégia tem por objetivo impedir que o povo se indigne diante dos desmandos dessa mesma elite, desviando sua revolta para a narrativa manipuladora do “nós contra eles”.

Quem luta cotidianamente para sobreviver não dispõe de forças materiais, emocionais ou simbólicas para investir em uma mudança estrutural que nunca chega. Isso se deve ao fato de não deter qualquer controle real sobre o sistema que o governa; resta-lhe apenas o papel de mais uma engrenagem da máquina que o oprime de forma contínua e silenciosa.

Silenciar diante da denúncia da rapinagem praticada pela classe político-oligárquica é reconhecer a própria impotência. Omitir-se, por sua vez, revela uma conivência subserviente, ainda que travestida de neutralidade. Trata-se de assumir, conscientemente ou não, a individualidade arrogante do modo de sobrevivência que nos é imposto como norma social.

Esse estado permanente de sobrevivência nos brutaliza e, progressivamente desumanizados, passamos a agir de modo instintivo, sem consciência crítica e sem questionamento. Tornamo-nos conformistas, reproduzindo o próprio ciclo de opressão ao legitimar, pela (r)eleição, aqueles que nos envenenam lentamente.

Assim, de nada adianta a revolta quando ela se reduz à emoção destemperada, pois a passionalidade por ideologias e personalidades conduz à dominação instrumentalizada, sem produzir qualquer transformação efetiva. A revolta, nesses termos, não rompe o sistema: é absorvida por ele. Todo movimento que se limita a reagir ao sistema acaba, paradoxalmente, por alimentá-lo.

Resta, então, a questão que inquieta e desloca: ainda é possível reinventar aquilo que nos captura antes mesmo de termos consciência de sua lógica? Ou toda tentativa de mudança já nasce contida nos limites do próprio mecanismo que pretende superar?

Criado em: 5/2/2026 Autor: Flavyann Di Flaff

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

LOOP FARAÔNICO

  De um sonho decifrado ao pesadelo parafraseado. A capa que veste como uma luva se chama representatividade, e a muitos engana, porque a vista turva. Ao se tornar conveniente, perde toda humanidade. Os sete anos de fartura e os de miséria, antes, providência pedagógica, hoje mensagem ideológica, tornando o que era sério em pilhéria. A fartura e a miséria se prolongam, como em uma eterna praga sem nunca ter uma solução na boca de representantes que valem nada. O Divino dá a solução, e esses homens nada fazem, deixando o povo perecer num infinito sofrer, pois, basta representar, para fortunas obterem. E, assim, de dois em dois anos, os sete se repetem, como num loop infinito de fartura de enganos.   Criado em : 1/6/2025 Autor : Flavyann Di Flaff

ILUSIONISTA DO AMOR

  O amante é um ilusionista que coloca a atenção do outro no ponto menos interessante, levando o ser amado a se encantar com o desinteressante. Quando o amante se vai, o amado age como um apostador, que, diante da iminência da perda, se desespera e tenta recuperar o que já foi. Mas, ao invés de encontrar o amor perdido, encontra apenas o reflexo de sua própria carência, como quem busca ouro em espelhos quebrados. Restando, então, ao amado, o desafio de enfrentar o vazio, reconhecer a ilusão e descobrir, enfim, que o verdadeiro amor começa, quando cessa a necessidade de iludir ou de ser iludido. Criado em : 14/11/2024 Autor : Flavyann Di Flaff

O JOGO DA VIDA

O jogo da vida é avaliado sob quatro perspectivas: a de quem já jogou e ganhou e desfruta da vitória, a de quem acabou de entrar, a de quem está jogando e a de quem jogou, perdeu e tem que decidir se desiste ou segue jogando. Quem jogou e ganhou, desfruta os louros da vitória, por isso pode assumir a postura que mais lhe convier diante da vida. Quem acabou de entrar no jogo, chega cheio de esperança e expectativas, que logo podem ser confirmadas ou frustradas, levando-o a ser derrotado ou a pedir para sair, permanecendo à margem, impotente diante da vida. Quem está jogando, sente a pressão da competição e, por isso, não se deixa levar por comentários de quem só está na arquibancada da vida, sem coragem de lutar. Quem jogou e perdeu, sente todo o peso das cobranças sociais pelo fracasso, por isso não se permite o luxo de desistir, pois sabe que tem que continuar jogando, seja por revolta, seja para se manter vivo nessa eterna disputa. Criado em: 20/11/2022 Autor: Flavyann Di Flaff