Chamam-me
isento como se fosse insulto, como se pensar não fosse verbo de risco.
Querem-me bandeira, cor vibrando em punho fechado, grito pronto na garganta,
antes mesmo da pergunta. Mas eu desconfio das verdades que marcham em fila, dos
heróis que exigem aplauso e dos inimigos fabricados em série.
Dizem
que o mundo arde e que o muro é covardia. Talvez! Mas também ardem as fogueiras
acesas por certezas cegas.
Não
me nego ao mundo. Nego-me ao cabresto. Não fujo do conflito. Fujo do rebanho.
Porque há batalhas que se alimentam da nossa pressa e discursos que sobrevivem
da nossa adesão automática.
Chamam-me
isentão como quem aponta o dedo para calar a dúvida. Mas há coragem em não
vestir uniforme, em suportar o desconforto de não caber nos slogans. Entre o
sim histérico e o não furioso, escolho a pergunta. Entre o ódio espelhado dos
extremos que se parecem, escolho a consciência inquieta. Se isso é alienação,
que seja! Mas que alienação estranha essa que observa, que lê, que questiona,
que não se curva ao coro.
Não estou ausente. Estou atento. E, talvez, o maior ato político, em tempos de guerra simbólica, seja recusar-se a transformar o pensamento em torcida, como se a passionalidade patológica fosse a maior das virtudes neste conturbado tempo.
Criado
em:
21/2/2026 Autor: Flavyann Di Flaff

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