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Mostrando postagens de maio, 2026

REFÉM

  Quando as dores da vida assolavam o seu ser, afogava as mágoas nas águas turvas do mar. Um dia, quis ressignificá-las, mas quando tentou rever as marcas deixadas, não mais as encontrou, pois o mar a todas afogou. Sem referências a seguir, como identificá-las? Assim, refém permaneceu das agruras que a vida lhe deu.   Criado em : 31/5/2026 Autor : Flavyann Di Flaff

OBSERVAÇÃO

Te vi, andavas triste a soluçar, o semblante pesado, a face envelhecida – marcas de lutas internas. O andar era lento, como se quisesse adiar algo. O corpo aparentava declínio, o cansaço se exibia no esguio ser.   De longe, fiquei a imaginar o que acontecia, mas era só especulação minha, jamais chegaria à verossimilhança, é que a vida, apesar de pública, é sempre privada, em algum momento, de liberdade, de alegria, de sossego.   Segui a minha observação, enquanto sumias na multidão.   Criado em : 24/5/2026 Autor : Flavyann Di Flaff  

DOIS BRASIS

O estrangeiro, com olhos de colonizador, ao descrever a nova terra, deduziu: há muito ouro para o imperador, água, terra e pau-brasil.   A carta de mil e quinhentos mentiu, o paraíso verde logo sumiu. Adeus, Pindorama! Brasil, agora proclama.   A poesia de Vaz vem e denuncia, o que a história oficial escondia. O herói nunca veio na caravela, sempre esteve aqui, a brilhar na favela, povo anônimo que luta, que vence a opressão, e escreve a verdade com sangue, suor e coração.   Criado em : 23/5/2026 Autor : Flavyann Di Flaff  

A LÓGICA DO VOTO NO MAL MENOR

  Eis a lógica do "nós contra eles" usada pela classe política: cada grupo, seja "situação", seja "oposição", escolhe um inimigo para o eleitor combater, mas esse inimigo nunca é a falta de atendimento às urgentes demandas do povo, é a todo momento o político do partido contrário – teatro do jogo pelo poder. O cidadão, ao se tornar consciente dessa manipulação, deveria mudar essa lógica. O eleitor precisa enxergar essa classe política elitista e corporativista como o verdadeiro adversário a ser combatido nas urnas. Afinal, o que esperar de um Congresso Nacional que usa a sua representatividade popular apenas para pressionar o presidente da vez e atuar em favor de si mesmo? A cada eleição, o povo é levado a defender pautas criadas e fomentadas pela classe política, que em nada modifica a conjuntura socioeconômica da população, em vez de lutar por Projetos de Lei que melhorem as condições de vida de todos. Com isso, logo se vê que o maior inimigo dos cid...

MNEMONIA

Hoje, sentado numa poltrona, ouvi uma antiga melodia. De repente, senti costumeiro perfume, meu coração acelerou e o corpo se aqueceu.   Do nada, senti um suave toque, não sei bem o que me sucedeu, e ela se materializou diante de mim.   Com os olhos fixos, escaneei toda aquela figura. Ainda descrente, lembranças surgiram.   Inspiração para loucuras de amor, ela sempre desconcertou o meu ser. Bastava ouvir seu nome e todo o meu corpo se emocionava, descontrole que precedia o gozo de estar em sua companhia.   Então, cessa a melodia e as imagens geradas pela nostalgia. Findou o caso, e o domingo se esvazia.   Criado em : 17/5/2026 Autor : Flavyann Di Flaff  

CALCANHAR

Como mero mortal, herdei a contradição humana. Às vezes, o medo impera e a impotência se faz presente, porque a coragem se acovarda. Há dias em que sou chuva de lágrimas, há dias em que sorrio. Em mim, há caos e cosmos em contínuo confronto. Desabito o aparente céu para criar um inferno simbólico – do Olimpo ao Hades em segundos. Assim, tomo consciência de que, de semideus, só herdei o calcanhar.   Criado em : 17/5/2026 Autor : Flavyann Di Flaff  

POR UMA VIDA SINGELA

Quero viver uma vidinha besta, longe da cidade que tudo condensa. Fujo da competição que segrega; da comparação que descarta; da vaidade que despreza; da intolerância que aniquila; do ego que manipula; do ressentimento que planeja vingança; do “nós contra eles”; do cinismo que cria máscaras; do interesse disfarçado de ajuda. Enfim, de todo mal disfarçado de bem.   Criado em : 15/5/2026 Autor : Flavyann Di Flaff  

MAESTRIA

A força sem sabedoria é uma espada cega, não enxerga humanidade, apenas tirania em seu semelhante.   É lâmina que sibila o ar, sem propósito, sem norte. Porque, quem só sabe golpear, trancafia a própria razão, entregando-se aos instintos.   Criado em : 30/4/2026 Autor : Flavyann Di Flaff  

SORTILÉGIO

  Um dia, a burrinha da sorte sorriu para mim, e, no desespero em que estava, fui, sozinho, tentar decifrar essa imagem enigmática. Antes, tivesse pedido ajuda a quem, de coisas transcendentais entre o céu e a Terra, entende. Porque errei o enigma e a decepção logo me devorou. Pensei que o sorriso fosse deboche da situação em que me encontrava, mas, na verdade, era a fortuna, travestida de pura sorte, que se insinuara para mim.   Criado em : 13/5/2026  Autor : Flavyann Di Flaff

PERCEPÇÃO MATERNA

Os poucos que me veem, só me percebem pela utilidade ou pela retribuição do agrado, ou pelo prazer dividido.   Quando falo, poucos são os que me ouvem, captam só a superfície. Por isso, para este mundo, sou apenas sombra do que de fato aparento.   Mas houve alguém que me escutava por inteiro, mesmo antes de vir a este mundo. Reconhecia a minha voz, mesmo quando ela tremia ao tentar ser forte. Percebia o meu silenciar diferente, quando estava a lhe falar ao telefone. Na minha resposta curta demais, sentia que algo estranho ocorria. Reconhecia quando o “tá tudo bem” saía apertado, quase sem expressão. Pressentia quando eu tentava, em vão, poupar todos da minha angústia. Atendia, quando eu não queria conversa, o pedido de colo expresso em meu rosto. E esse alguém era você, mãe, que me enxergou, me ouviu e me sentiu muito antes de todo o mundo.   Porque todo ser humano, em algum momento, quer ser reconhecido sem ter muito que explicar, sem ter que demonstrar desempenho. Simpl...

SOB AS LENTES DO VIVER

De braços abertos, lançou-se sob o globo ocular que, pela máquina fotográfica, lhe via – momento eternizado. Enquanto o Cristo, também de braços abertos, em segundo plano, a todos, lança a salvação.   O salto foi no vão, espaço-tempo entre um piscar de olhos e o enquadramento da paisagem. Mas não foi em vão, porque, do voo antinatural, Ícaro pós-moderno, nasceu nova oportunidade.   Como criança recém-nascida, retornou ao mundo. Assim, o passado foi reverenciado para promover a ressignificação – trampolim para uma vida revista.   Criado em : 10/5/2026 Autor : Flavyann Di Flaff

MÃE DE VITRINE

  Apesar de tantos presentes, há uma profunda ausência: A presença do sentimento verdadeiro.   Apesar desse imenso luto, muitos exibem o fruto de seu lucro, insensíveis bibelôs que para nada servem, a não ser demonstrar uma ostentação paga em módicas prestações infinitas.   Assim, aquele sentimento verdadeiro torna-se ornamento anacrônico, um camafeu jogado no fundo do baú de alguns corações frios e ególatras. E a madre, no seu dia, mesmo viva, vai tornando-se objeto temático de uma época em que a vida era vivida coletiva e harmoniosamente.   Criado em : 8/5/2026 Autor : Flavyann Di Flaff

MAR VERDE

Naquele imenso mar verde, eu me deixei levar pelo canto de sereia. Iludido, mergulhei naquela alienação laboral, como se ela fosse o único meio de sair da miséria.   Naquele imenso mar verde, tudo me prendia àquele lugar. Era a dívida na venda, que crescia feito tumor maligno, alimentando-se de sangue e suor; era a necessidade de sobreviver que me mantinha alheio à realidade.   A cana, que adoçava minhas lágrimas, era a mesma que, etílica, afogava as minhas mágoas.   Naquele imenso mar verde, que das águas nem cheiro emanava, fiz zunir o facão que a tudo decepava – fúria sublimada em cortes precisos. E, assim, o mês é contado em toneladas, enquanto a vida é mortalmente fracionada.   Criado em : 4/5/2026 Autor : Flavyann Di Flaff  

O PORÃO DA ALMA

De repente, a maturidade! Somos alçados a seres responsáveis, como se as consequências fossem meros acessórios daquele virtuoso patamar, assumindo-os e expondo-os no passeio público como símbolos da beleza de ser um humano valoroso.   Mas, às vezes, diferente de tudo, não antes, porém depois, vem a infância e abala a madura estrutura, revelando-nos as rachaduras do que pensávamos inabalável.   Então, em um átimo, as nossas fragilidades são expostas, cai o escudo, rasga-se a máscara, e nos descobrimos crianças feridas, escondidas nos porões da alma.   Criado em : 1/5/2026 Autor : Flavyann Di Flaff

JOGO DO PODER

  Ganhar ou perder, faz parte do jogo. Isso não implica em mudanças efetivas na situação política em que vivemos. O mais certo de ocorrer é a mudança de comando e, consequentemente, das regras que regem o jogo. Porque se o jogo é bom, quem ocupa a direção quer os lucros só para si e para seu grupo, sem nunca os universalizar. É a regulamentação do lema “Brasil, Eu Te Sacaneio”, sempre em nome do bem de todos e felicidade geral da nação. A grande massa de eleitores, cidadãos comuns, comportam-se constantemente como pássaros recém-nascidos, ou seja, como incapazes de se alimentar por conta própria, atuando, de forma pessoal, questionando e discernindo, na digestão dos acontecimentos que lhes são narrados por outros. Talvez por ignorância ou por conveniência, preferem digerir o que é regurgitado por quem não lhes têm verdadeira preocupação, só um profundo interesse descartável. E, assim, segue a vida encenada, nunca vivida de fato, sob a máscara interpretativa do senhor e do escra...