Os poucos que me veem, só me percebem pela utilidade ou pela retribuição do agrado, ou pelo prazer dividido. Quando falo, poucos são os que me ouvem, captam só a superfície. Por isso, para este mundo, sou apenas sombra do que de fato aparento. Mas houve alguém que me escutava por inteiro, mesmo antes de vir a este mundo. Reconhecia a minha voz, mesmo quando ela tremia ao tentar ser forte. Percebia o meu silenciar diferente, quando estava a lhe falar ao telefone. Na minha resposta curta demais, sentia que algo estranho ocorria. Reconhecia quando o “tá tudo bem” saía apertado, quase sem expressão. Pressentia quando eu tentava, em vão, poupar todos da minha angústia. Atendia, quando eu não queria conversa, o pedido de colo expresso em meu rosto. E esse alguém era você, mãe, que me enxergou, me ouviu e me sentiu muito antes de todo o mundo. Porque todo ser humano, em algum momento, quer ser reconhecido sem ter muito que explicar, sem ter que demonstrar desempenho. Simpl...