Pular para o conteúdo principal

UMA VELHA VONTADE

           

Ah, como eu queria voltar! Retornar aos tempos idos da infância! Mas, cresci, não dá. Desde lá, o mundo mudou ao meu redor. Acabou, toda aquela fascinação. A espontaneidade de banhar-se ao sol ou na chuva, foi substituída pelo temor de adoecer. O prazer de andar pelo mundo afora se encantando, transformou-se em síndrome do pânico. A empolgação pelo agora, desinteresse natural pelo que viria, degenerou-se em ansiedade paralisante devido à incerteza do amanhã.

Ah, como gostaria de contar tudo o que aprendi! Talvez, assim, conseguisse amenizar as psicopatologias que adquiri, quando enfim cresci. Porém, agora se faz tarde. Voltar a ser a criança que fui, neste mundo, tornar-me-ia ainda mais vulnerável. Se eu pudesse renascer infante não caminharia, a passos largos, rumo às trevas das imposições sociais inalcançáveis – fardo que consome nossas forças e limita a nossa existência a mera sobrevivência.

Ah, que vontade de pegar na mão do tempo e suplicar para voltar! Alegrar-me, novamente, com as coisas do mundo. De nada saber, e néscio de tudo, da inocência voltar a viver! Contudo, já se faz tarde, o corpo moído pelas engrenagens do mundo pede descanso. Então, adormece a ânsia anciã numa intrigante posição: a fetal.

Criado em: 25/01/2021 Autor: Flavyann Di Flaff

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

AFETADO PELA POESIA

  Dobrando rapidamente a esquina do Tempo, sou assaltado pela Poesia. Pela emoção, ela me pega de jeito. Inicialmente, permaneço estático, retrato da impotência diante do inevitável. Revolucionária, arranca de mim tudo que não lhe serve, despindo-me das insignificâncias que julgava serem valores. Audaz, enche-me de coragem, numa espécie de mais-valia, pois, sem aquelas, eu nada mais valia, uma vez que nada mais possuía. Refeito, possuidor agora de toda a potência da Poesia, sigo espalhando amor, pregando e fazendo justiça por onde eu for.   Criado em : 11/12/2022 Autor: Flavyann Di Flaff

FRÁGIL ESPERANÇA

      Meus sonhos, antes e sempre sonhados, foram e estão todos despedaçados! Talvez por total falta de empenho ou competência minha em torná-los concretos, se bem que a ausência plena de apoio emperra e encerra quaisquer sonhos. Por tudo isso, meus sonhos se tornaram uma fonte contínua de desilusão. Se antes me julgava morto, hoje, estou sepultado nessa casa, seguindo uma rotina massacrante, que, em nada, prepara-me para novas perspectivas. Por isso o pensamento de ter despertado tardiamente me assola dia a dia, tornando-se mais uma tortura para minh'alma. Noites incontáveis chorei por remoer uma situação ruim e que parece nunca ter um final. Muito tenho clamado aos céus, mas penso que tenho pecado demais para merecer sequer uma pequena graça e, assim, permaneço com o semblante dorido de um eterno derrotado, que não sabe o que será do seu amanhã. Esperando, pelo menos, em ter um amanhã, para, assim, poder sentir o doce e prazeroso sabor da ressurreição e da remiss...

REPRESENTANTES DO COLETIVO

Carregam na lapela os jeitos, os jeitinhos, os atalhos que a rua ensina, e que a gente finge não reconhecer no próprio passo.   Escândalos brotam, como frutos amargos de uma mesma terra: a que a mão social rega com descuido e conveniência.   E quando apontamos o dedo, três retornam ao peito, lembrando-nos de que, às vezes, o que chamamos de “eles” não passa de um reflexo insistente do que ainda somos todos nós.   Criado em : 22/11/2025 Autor : Flavyann Di Flaff