Pular para o conteúdo principal

O CÃO

                             

Apresentou-se, para mim, num estado deplorável. Visivelmente doente, faminto e despido de tudo. Essa imagem me condoeu a ponto de abrir a porta e trazê-lo para dentro do meu lar. Compartilhei casa, comida, cama e vida, crente de que o nosso encontro tinha um propósito. Com o tempo, refeito e dono de si e de mim, foi exercendo dissimuladamente o seu domínio. Quando dei por mim, já estava satisfazendo todos os seus caprichos. 

O seu latir era enfático, impondo-me vontades animalescas. Depois de sua presença em minha vida, atraí a indiferença de alguns e a ira de outros. Fiquei condicionado a encargos exercidos em horários de acordo com o seu bel-prazer. Alienado da minha própria realidade, eu era plena dedicação a ele, perdendo a noção total da relação entre senhor e escravo, pois já não discernia quem era quem. 

A convivência com esse ser iluminado me deixou ofuscado, como cego que fui, diante de seu olhar visionário. Então, exausto da repentina decadência, uma vez que, como Fausto, fiz-me de tolo, pactuando com quem nada de bom me oferecia, rompi o ciclo maléfico e me lancei ao universo das possibilidades positivas.

Criado em: 29/1/2021 Autor: Flavyann Di Flaff

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

LOOP FARAÔNICO

  De um sonho decifrado ao pesadelo parafraseado. A capa que veste como uma luva se chama representatividade, e a muitos engana, porque a vista turva. Ao se tornar conveniente, perde toda humanidade. Os sete anos de fartura e os de miséria, antes, providência pedagógica, hoje mensagem ideológica, tornando o que era sério em pilhéria. A fartura e a miséria se prolongam, como em uma eterna praga sem nunca ter uma solução na boca de representantes que valem nada. O Divino dá a solução, e esses homens nada fazem, deixando o povo perecer num infinito sofrer, pois, basta representar, para fortunas obterem. E, assim, de dois em dois anos, os sete se repetem, como num loop infinito de fartura de enganos.   Criado em : 1/6/2025 Autor : Flavyann Di Flaff

ILUSIONISTA DO AMOR

  O amante é um ilusionista que coloca a atenção do outro no ponto menos interessante, levando o ser amado a se encantar com o desinteressante. Quando o amante se vai, o amado age como um apostador, que, diante da iminência da perda, se desespera e tenta recuperar o que já foi. Mas, ao invés de encontrar o amor perdido, encontra apenas o reflexo de sua própria carência, como quem busca ouro em espelhos quebrados. Restando, então, ao amado, o desafio de enfrentar o vazio, reconhecer a ilusão e descobrir, enfim, que o verdadeiro amor começa, quando cessa a necessidade de iludir ou de ser iludido. Criado em : 14/11/2024 Autor : Flavyann Di Flaff

O JOGO DA VIDA

O jogo da vida é avaliado sob quatro perspectivas: a de quem já jogou e ganhou e desfruta da vitória, a de quem acabou de entrar, a de quem está jogando e a de quem jogou, perdeu e tem que decidir se desiste ou segue jogando. Quem jogou e ganhou, desfruta os louros da vitória, por isso pode assumir a postura que mais lhe convier diante da vida. Quem acabou de entrar no jogo, chega cheio de esperança e expectativas, que logo podem ser confirmadas ou frustradas, levando-o a ser derrotado ou a pedir para sair, permanecendo à margem, impotente diante da vida. Quem está jogando, sente a pressão da competição e, por isso, não se deixa levar por comentários de quem só está na arquibancada da vida, sem coragem de lutar. Quem jogou e perdeu, sente todo o peso das cobranças sociais pelo fracasso, por isso não se permite o luxo de desistir, pois sabe que tem que continuar jogando, seja por revolta, seja para se manter vivo nessa eterna disputa. Criado em: 20/11/2022 Autor: Flavyann Di Flaff