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PLANO DIRETOR DO CAOS

 
O legislador desenha retas no papel almaço:
— Artigo 5º: a cidade será um compasso.
O prefeito sorri, afrouxa a norma,
e a cidade escorre pela encosta abaixo.
 
A lei é uma cerca de arame farpado
contornando o vazio.
O gestor é o operário da tarde
que serra um pedaço do arame
e vende, ao povo, por um voto, a chave do terreno.
 
(O terreno é íngreme, molhado, futuro alagado.
Mas é um chão. Um não-chão. Um quase.)
 
E a periferia brota como erva daninha
— a mais pura vegetação brasileira —
sem esgoto, sem asfalto, sem número na casa.
Só com promessa. A promessa é o alicerce
que segura a parede de tábuas que cai.
 
E o gestor chega de carro oficial,
pisa na lama, faz cara de pai.
— Trago a ordem! — grita, apostemado.
E a multidão aplaude o homem que quebrou o compasso
e lhes vendeu o mapa do labirinto do descaso.
 
A lei? Ficou no papel, branca e nobre,
como um defunto pronto para o velório.
A cidade real, essa pulsa, cresce torta,
feita de jeitos e de acertos de contas
no balcão da Prefeitura,
entre um café e um protocolo frio.
 
E o poder não se governa por artigos.
O poder se planta na terra invadida,
se rega com a água que não chegou,
e se colhe no dia da eleição:
um fruto amargo, doméstico, nosso de cada dia.
 
Criado em
: 27/9/2025 Autor: Flavyann Di Flaff

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