Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de fevereiro, 2026

CONSEQUÊNCIAS DO LAWFARE

  O que se observa, em diversos contextos políticos contemporâneos, não é propriamente um compromisso institucional com o enfrentamento estrutural dos desmandos na gestão pública, mas a sua espetacularização estratégica. Denúncias que deveriam ensejar apuração técnica, responsabilidade jurídica e aperfeiçoamento institucional tornam-se instrumentos de disputa política. O escândalo passa a valer mais do que a solução. A espetacularização converte o processo jurídico em espetáculo midiático. Ao invés de fortalecer o devido processo legal e a transparência administrativa, promove-se a exposição pública seletiva, frequentemente orientada por interesses circunstanciais. O objetivo não é sanar irregularidades, mas desgastar reputações, corroer capital político e produzir efeitos eleitorais imediatos. Nesse contexto, a lógica da justiça é substituída pela lógica da performance. Essa dinâmica caracteriza o fenômeno conhecido como lawfare : o uso estratégico do aparato jurídico como arm...

OLHAR INVEJOSO DO TEMPO

  O tempo que acelera as coisas da cidade, dessa bela terra, passa ao largo. Libera o livre-arbítrio às pessoas que nela vivem, dando uma autonomia que as libera a seguirem a vida no ritmo que bem lhes convier. A vida, nessa terra, é desapressada, segue apenas o ritmo das necessidades cotidianas. O tempo por aqui não pede passagem, atropelando tudo e todos, prefere observar o desenrolar da vida das pessoas locais, parecendo ter inveja desse viver. É o caipira que sai pra roça, abre a terra, coloca a semente. É a natureza que assume a tarefa, regando, fazendo brotar a semente. Cada gesto no seu momento, sem pular etapas. Assim segue a vida nessa terra abençoada, onde o tempo passa só de visita, sem se demorar. Criado em : 26/2/2026 Autor : Flavyann Di Flaff

SER ISENTO EM TEMPOS DE POLARIZAÇÃO POLÍTICA

Chamam-me isento como se fosse insulto, como se pensar não fosse verbo de risco. Querem-me bandeira, cor vibrando em punho fechado, grito pronto na garganta, antes mesmo da pergunta. Mas eu desconfio das verdades que marcham em fila, dos heróis que exigem aplauso e dos inimigos fabricados em série. Dizem que o mundo arde e que o muro é covardia. Talvez! Mas também ardem as fogueiras acesas por certezas cegas. Não me nego ao mundo. Nego-me ao cabresto. Não fujo do conflito. Fujo do rebanho. Porque há batalhas que se alimentam da nossa pressa e discursos que sobrevivem da nossa adesão automática. Chamam-me isentão como quem aponta o dedo para calar a dúvida. Mas há coragem em não vestir uniforme, em suportar o desconforto de não caber nos slogans. Entre o sim histérico e o não furioso, escolho a pergunta. Entre o ódio espelhado dos extremos que se parecem, escolho a consciência inquieta. Se isso é alienação, que seja! Mas que alienação estranha essa que observa, que lê, que questio...

NEOFARISAÍSMO

De acordo com os ensinamentos de alguns religiosos, a Boa Nova não surgiu, só existe o Velho Testamento. Basta vermos as pregações baseadas no medo, no pecado, na justiça e no inferno. Nesse sentido, a vida não passa de um estado de alerta recorrente, cujo objetivo é não se tornar impuro e, assim, perder a salvação. Se seguirmos cegamente tais ensinamentos, devemos crer que Jesus deveria ter incentivado e apedrejado a mulher adúltera, que Ele não deveria ter se convidado a ir à casa de Zaqueu, publicano, cobrador de impostos. Afinal, o que mais importa é a letra fria da lei, e não a observância do ato em si. A Boa Nova parece não fazer parte dos ensinamentos desses neofarisaicos, o que só justifica a lógica mercantilista da fé, em que a Teologia da Prosperidade é a essência. Por isso, a comparação e o julgamento são tão recorrentes e presentes no comportamento de muitos religiosos, frutos de percepções e narrativas distorcidas do Evangelho, esvaziando-o. Criado em : 16/2/2026 Aut...

POLÍTICA CULTURAL INSTRUMENTALIZADA

  A cultura raramente ocupa lugar central nas prioridades estratégicas dos gestores públicos. A dinâmica predominante nas secretarias estaduais e municipais de cultura revela uma política voltada menos ao fortalecimento das manifestações de base, aquelas sustentadas por grupos locais que preservam práticas culturais ancestrais, e mais à instrumentalização de agentes culturais já consagrados, convertidos em vitrines simbólicas de administrações cuja legitimidade, tanto administrativa quanto política, é frequentemente questionável, o que revela um tratamento, em relação à Cultura, não como um direito, mas, sim, como um ornamento estatal. Criado em : 15/2/2026 Autor : Flavyann Di Flaff

ESCRAVIDÃO MODERNA

Eis a cidade onde o sonho se realiza ou é só mais um a perecer. De domingo a domingo, ou se ocupa a mente e o corpo com preocupações e tarefas alheias, ou se aboleta no sofá, diante da TV ou do celular, numa fuga que prende mais que liberta, tamanha é a tensão do estado de alerta. Nesses momentos, o cansaço gerado é sempre renovado, e nunca superado, sugando-nos a esperança pouca, deixando um vazio impreenchível, ocupado, quase sempre, por uma angústia e um desespero. Mas, quem sabe, um domingo calmo, com nossos pais ao lado, compartilhando segurança, a esperança se renovasse e a impotência cessasse, trazendo-nos de novo à vida, vencêssemos, enfim, esse estado de sobrevivência, que tanto nos priva de crer na realização de nossos sonhos.   Criado em : 15/2/2026 Autor : Flavyann Di Flaff  

A QUEDA DA SÍNTESE: Meias-Verdades e a Tirania das Capas Sociais

  Em seu empirismo radical, para se chegar ao conhecimento complexo, Locke descreve a percepção, a impressão e a reflexão como a “escada”, o “caminho”. Já Fichte e Kant desenvolveram, para se chegar a uma compreensão mais profunda de algum tema, um método composto por tese, antítese e síntese. Por fim, Hegel, seguindo na mesma linha, desenvolve os termos abstrato-negativo-concreto. Referências para o entendimento moderno sobre como aprendemos e percebemos o mundo. Porém, hoje, basta que algum indivíduo, vestido com alguma capa social que lhe dê autoridade, pronuncie meias-verdades, para que a massa, de imediato, acredite ser a verdade absoluta, pois a vasta opção de informações e o cansaço pela sobrevivência não a capacita a seguir os já mencionados passos para a devida compreensão dos fatos que lhe são narrados, gerando uma sociedade de impressões rápidas, mas de reflexões rasas. Assim, o ambiente moderno impõe uma realidade digital hiperestimulante e fragmentada. Se a socieda...

EMPIRISMO SOCIAL MODERADO

Ao nascermos, trazemos algumas ideias inatas, isto é, conhecimentos e princípios pré-estabelecidos que nos ajudarão a uma adaptação mais rápida ao meio em que estaremos inseridos, cuja denominação conhecida é sociedade. Os primeiros mediadores desse meio são os nossos pais, é através da experiência deles que boa parte do conhecimento necessário para convivermos socialmente será adquirido, o restante da formação de nossa identidade, ou seja, do nosso caráter e do entendimento serão moldados por inteiro pelo ambiente, pela educação e pelas nossas vivências individuais, portanto, tudo isso implica em como aprendemos e percebemos o mundo. Por fim, quando nos relacionamos uns com os outros em todos os sentidos, numa conexão fundamental, tomamos consciência de que a sociedade é construída e mantida não pelo que ela é de fato, mas pela percepção, pela impressão e pela reflexão que cada um de nós temos dela, como se, em cada novo relacionamento, trocássemos todo esse conjunto de informações ...

VOTO COMO ENGRENAGEM DE SUBMISSÃO

  O voto, há muito tempo, opera como um viés de confirmação da submissão coercitiva das massas à classe política, que sustenta deliberadamente um estado permanente de sobrevivência. Tal estratégia tem por objetivo impedir que o povo se indigne diante dos desmandos dessa mesma elite, desviando sua revolta para a narrativa manipuladora do “nós contra eles”. Quem luta cotidianamente para sobreviver não dispõe de forças materiais, emocionais ou simbólicas para investir em uma mudança estrutural que nunca chega. Isso se deve ao fato de não deter qualquer controle real sobre o sistema que o governa; resta-lhe apenas o papel de mais uma engrenagem da máquina que o oprime de forma contínua e silenciosa. Silenciar diante da denúncia da rapinagem praticada pela classe político-oligárquica é reconhecer a própria impotência. Omitir-se, por sua vez, revela uma conivência subserviente, ainda que travestida de neutralidade. Trata-se de assumir, conscientemente ou não, a individualidade arroga...