Pular para o conteúdo principal

WI-FI

Depois de saírem de um emaranhado de relacionamentos, ansiosos e inseguros, conectaram-se. Em vídeos promocionais virais, viram-se. Convencidos pela primeira impressão, encontraram-se. Dali em diante, absorvidos pelo imediatismo das obrigações cotidianas, encontravam-se para cumprir a formalidade relacional recente.

As vozes transcritas soavam como letras frias de uma lei determinada monocraticamente. Quem as lia, não percebia nenhum sinal da mais frágil emoção nelas, por isso sentia a necessidade de colocar, de acordo com seu estado emocional, a impressão que bem lhe calhava no momento. As conversas frugais transformaram-se em textões impossíveis de serem lidos; os pedidos carinhosos, em cobranças constantes por respostas imediatas.

Uma polifonia destoante da realidade vivenciada instalou-se. O que era uma explicação plausível transformou-se em arrogância; o que era sensatez, flecha mortal no corpo automutilado por impertinentes contingências. Rompendo, de vez, com a invisível conexão entre eles. O que produziu um virtual desconforto, induzindo a um compartilhamento que foi curtido e comentado por geral, gerando o engajamento almejado. Na verdade, a conexão que existia era individualizada, uma vez que cada um possuía a sua, baseada em dados móveis, que em nada foram alterados. Afinal, pagando a fatura, serão renovados automaticamente.

Assim, findou um relacionamento moderno. Sem olho no olho, sem argumentos consistentes, sem réplica ou tréplica, simplesmente, em dois cliques: um para bloquear e outro para excluir.

Criado em: 16/04/2022 Autor: Flavyann Di Flaff

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

FRÁGIL ESPERANÇA

      Meus sonhos, antes e sempre sonhados, foram e estão todos despedaçados! Talvez por total falta de empenho ou competência minha em torná-los concretos, se bem que a ausência plena de apoio emperra e encerra quaisquer sonhos. Por tudo isso, meus sonhos se tornaram uma fonte contínua de desilusão. Se antes me julgava morto, hoje, estou sepultado nessa casa, seguindo uma rotina massacrante, que, em nada, prepara-me para novas perspectivas. Por isso o pensamento de ter despertado tardiamente me assola dia a dia, tornando-se mais uma tortura para minh'alma. Noites incontáveis chorei por remoer uma situação ruim e que parece nunca ter um final. Muito tenho clamado aos céus, mas penso que tenho pecado demais para merecer sequer uma pequena graça e, assim, permaneço com o semblante dorido de um eterno derrotado, que não sabe o que será do seu amanhã. Esperando, pelo menos, em ter um amanhã, para, assim, poder sentir o doce e prazeroso sabor da ressurreição e da remiss...

ILUSIONISTA DO AMOR

  O amante é um ilusionista que coloca a atenção do outro no ponto menos interessante, levando o ser amado a se encantar com o desinteressante. Quando o amante se vai, o amado age como um apostador, que, diante da iminência da perda, se desespera e tenta recuperar o que já foi. Mas, ao invés de encontrar o amor perdido, encontra apenas o reflexo de sua própria carência, como quem busca ouro em espelhos quebrados. Restando, então, ao amado, o desafio de enfrentar o vazio, reconhecer a ilusão e descobrir, enfim, que o verdadeiro amor começa, quando cessa a necessidade de iludir ou de ser iludido. Criado em : 14/11/2024 Autor : Flavyann Di Flaff

LOOP FARAÔNICO

  De um sonho decifrado ao pesadelo parafraseado. A capa que veste como uma luva se chama representatividade, e a muitos engana, porque a vista turva. Ao se tornar conveniente, perde toda humanidade. Os sete anos de fartura e os de miséria, antes, providência pedagógica, hoje mensagem ideológica, tornando o que era sério em pilhéria. A fartura e a miséria se prolongam, como em uma eterna praga sem nunca ter uma solução na boca de representantes que valem nada. O Divino dá a solução, e esses homens nada fazem, deixando o povo perecer num infinito sofrer, pois, basta representar, para fortunas obterem. E, assim, de dois em dois anos, os sete se repetem, como num loop infinito de fartura de enganos.   Criado em : 1/6/2025 Autor : Flavyann Di Flaff