Pular para o conteúdo principal

AO CAIR A LONA

 

Primeiro vieram os anúncios, depois o circo foi montado. Assim que a lona foi erguida, fomos à lona diariamente, sempre colocados no corner por anúncios ininterruptos das performances circenses.

Não havia um dia sequer em que a atmosfera apelativa do espetáculo indoor não invadisse a nossa rotina, causando incômodos alvoroços por entre as gentes da cidade. Mesmo quando os reclames não se faziam presentes, o assunto se perpetuava nas rodas de conversa fiada.

Mas como bem dizem há tempos, "não há bem que dure, nem mal que ature". Assim o espetáculo minguou, a repercussão cessou e o fuzuê acabou, então o circo arrancou as estacas, desmontou as torres e recolheu a lona. Encerrando, assim, a representação de uma realidade sistematizada e naturalizada há séculos. Nos dias seguintes, os anúncios sobre a turnê funambulesca ficaram escassos. Sem o circo montado, todo o resto da vida cotidiana não possuía sentido, era dessa forma que os anunciantes desejavam engendrar, em nossa consciência, uma percepção distorcida da realidade. Uma grande maioria aderiu a essa maquinaria, sacrificando a própria individualidade em prol do conforto e de uma segurança ilusórios.

Quando o entretenimento vazio, como uma doença que cessa, passou, os que dele bebiam, entraram em colapso e surtaram. Haja drogas lícitas e ilícitas para dar conta de tanta neurose coletiva. Nesse instante, não há vencedores, nem vencidos, mas dominadores e dominados. Restando, então, aos que tiram “férias da realidade”, a conformidade voluntária.

Criado em: 20/10/2021 Autor: Flavyann Di Flaff

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

FRÁGIL ESPERANÇA

      Meus sonhos, antes e sempre sonhados, foram e estão todos despedaçados! Talvez por total falta de empenho ou competência minha em torná-los concretos, se bem que a ausência plena de apoio emperra e encerra quaisquer sonhos. Por tudo isso, meus sonhos se tornaram uma fonte contínua de desilusão. Se antes me julgava morto, hoje, estou sepultado nessa casa, seguindo uma rotina massacrante, que, em nada, prepara-me para novas perspectivas. Por isso o pensamento de ter despertado tardiamente me assola dia a dia, tornando-se mais uma tortura para minh'alma. Noites incontáveis chorei por remoer uma situação ruim e que parece nunca ter um final. Muito tenho clamado aos céus, mas penso que tenho pecado demais para merecer sequer uma pequena graça e, assim, permaneço com o semblante dorido de um eterno derrotado, que não sabe o que será do seu amanhã. Esperando, pelo menos, em ter um amanhã, para, assim, poder sentir o doce e prazeroso sabor da ressurreição e da remiss...

ILUSIONISTA DO AMOR

  O amante é um ilusionista que coloca a atenção do outro no ponto menos interessante, levando o ser amado a se encantar com o desinteressante. Quando o amante se vai, o amado age como um apostador, que, diante da iminência da perda, se desespera e tenta recuperar o que já foi. Mas, ao invés de encontrar o amor perdido, encontra apenas o reflexo de sua própria carência, como quem busca ouro em espelhos quebrados. Restando, então, ao amado, o desafio de enfrentar o vazio, reconhecer a ilusão e descobrir, enfim, que o verdadeiro amor começa, quando cessa a necessidade de iludir ou de ser iludido. Criado em : 14/11/2024 Autor : Flavyann Di Flaff

LOOP FARAÔNICO

  De um sonho decifrado ao pesadelo parafraseado. A capa que veste como uma luva se chama representatividade, e a muitos engana, porque a vista turva. Ao se tornar conveniente, perde toda humanidade. Os sete anos de fartura e os de miséria, antes, providência pedagógica, hoje mensagem ideológica, tornando o que era sério em pilhéria. A fartura e a miséria se prolongam, como em uma eterna praga sem nunca ter uma solução na boca de representantes que valem nada. O Divino dá a solução, e esses homens nada fazem, deixando o povo perecer num infinito sofrer, pois, basta representar, para fortunas obterem. E, assim, de dois em dois anos, os sete se repetem, como num loop infinito de fartura de enganos.   Criado em : 1/6/2025 Autor : Flavyann Di Flaff