Pular para o conteúdo principal

A COBRANÇA CERTA E JUSTA DO TEMPO

Como outros na sagrada e hipócrita Inquisição, também fui condenado à fogueira! Não por merecimento, mas por pecados a mim atribuídos. Culpas e traumas guardados no coração daquela sacerdotisa, que em suas pregações dominicais cobrava coisas dos outros que ela mesma não seguia.
A orgia, a falta de companheirismo, a ironia e a traição, coisas que ela tanto condenava, cometeu-as para comigo! Nunca a provoquei, mas a sua ansiedade por ver saciados todos os seus desejos, transformou-me em seu desafeto. Então sobrou para mim, apenas arder no fogo do desencanto.
Até à condenação de fato, os dias se passaram lentos. A cada encontro com meu algoz, via o quanto era dissimulado o seu afeto. Deixava, muitas vezes, propositadamente, em suas palavras, transparecer o seu asco pelo meu sentimento, esse, constantemente, testado e desaprovado, pois era visível que me transformara em um fardo para a sua vida.
A comunicação da pena não veio em forma de palavras, mas em forma da ação mais cruel contra um ser humano: a traição! Logo dela, que tanto confiei e dei-me desde o início. Custou-me digerir aquela mensagem, mas já estava consumada, e teria que pagar pelo que não fiz! Assim foi feito, e fui levado à fogueira da Inquisição. Até então, calado fiquei, e já sendo devorado pelas chamas do desencanto, vi a ironia estampada naquela face que um dia acariciei e beijei.
A sacerdotisa, ansiosa como era, não aguentando mais esperar, deu como certa a minha morte, e partiu. Mal sabe ela, que assim como a Fênix, que ao virar cinzas revive, eu, no fogo do desencanto, fiz-me mais forte e voltei a viver!
O tempo passará, e a pena imputada ao inocente será revertida àquela que, verdadeiramente, transgrediu as regras da boa e honrada convivência a dois. Pois para aquele, quem tem como pagar, não lhe deve nada.

Criado em: 09/01/2013 Autor: Flavyann Di Flaff

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

FRÁGIL ESPERANÇA

      Meus sonhos, antes e sempre sonhados, foram e estão todos despedaçados! Talvez por total falta de empenho ou competência minha em torná-los concretos, se bem que a ausência plena de apoio emperra e encerra quaisquer sonhos. Por tudo isso, meus sonhos se tornaram uma fonte contínua de desilusão. Se antes me julgava morto, hoje, estou sepultado nessa casa, seguindo uma rotina massacrante, que, em nada, prepara-me para novas perspectivas. Por isso o pensamento de ter despertado tardiamente me assola dia a dia, tornando-se mais uma tortura para minh'alma. Noites incontáveis chorei por remoer uma situação ruim e que parece nunca ter um final. Muito tenho clamado aos céus, mas penso que tenho pecado demais para merecer sequer uma pequena graça e, assim, permaneço com o semblante dorido de um eterno derrotado, que não sabe o que será do seu amanhã. Esperando, pelo menos, em ter um amanhã, para, assim, poder sentir o doce e prazeroso sabor da ressurreição e da remiss...

ILUSIONISTA DO AMOR

  O amante é um ilusionista que coloca a atenção do outro no ponto menos interessante, levando o ser amado a se encantar com o desinteressante. Quando o amante se vai, o amado age como um apostador, que, diante da iminência da perda, se desespera e tenta recuperar o que já foi. Mas, ao invés de encontrar o amor perdido, encontra apenas o reflexo de sua própria carência, como quem busca ouro em espelhos quebrados. Restando, então, ao amado, o desafio de enfrentar o vazio, reconhecer a ilusão e descobrir, enfim, que o verdadeiro amor começa, quando cessa a necessidade de iludir ou de ser iludido. Criado em : 14/11/2024 Autor : Flavyann Di Flaff

LOOP FARAÔNICO

  De um sonho decifrado ao pesadelo parafraseado. A capa que veste como uma luva se chama representatividade, e a muitos engana, porque a vista turva. Ao se tornar conveniente, perde toda humanidade. Os sete anos de fartura e os de miséria, antes, providência pedagógica, hoje mensagem ideológica, tornando o que era sério em pilhéria. A fartura e a miséria se prolongam, como em uma eterna praga sem nunca ter uma solução na boca de representantes que valem nada. O Divino dá a solução, e esses homens nada fazem, deixando o povo perecer num infinito sofrer, pois, basta representar, para fortunas obterem. E, assim, de dois em dois anos, os sete se repetem, como num loop infinito de fartura de enganos.   Criado em : 1/6/2025 Autor : Flavyann Di Flaff