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SEGUINDO EM FRENTE

A melancolia típica das tardes domingueiras veio se chegando, de mansinho, junto com a chuva, que, aos poucos, começava a se derramar por sobre as nossas casas, dando sinais de que se estenderia ao longo de todo o dia. O vento assoviava uma canção triste, daquelas que nos fazem lembrar de coisas vividas em tempos idos. Passagens existências das quais pessoas fizeram parte e deixaram um pouco de si, como marcas simbólicas, as quais podemos recorrer, quando a saudade delas bater. Mês de junho, período em que as temperaturas costumam diminuir, provocando um frio que pede um aconchego. Porém, hoje, ele tem outro significado, veio lembrar-me de afastamento, graças a sua indiferença imerecida. Sigo respeitoso o seu pensar, apreciando o tempo, que a tudo posterga, ficando livre, leve e solto, para, assim, seguir em frente, cumprindo a sua jornada. Criado em: 05/07/2020 Autor: Flavyann Di Flaff

BRINQUEDO NOVO

Assim que nasceu, foi colocado numa caixa de proteção – cuidados maternos – pois, naquela fase, deles necessitava. Quando levado para o seu futuro lar, dentro da caixa sempre estava. O movimento na casa era frenético, afirmavam os seus vivos olhos. De hora em hora, alguém vinha mudar os acessórios que lhe acompanhavam desde a sua chegada, antes, dentro de uma enorme bolsa, depois, em um móvel com gavetas. Tudo lhe encantava, chamava a sua atenção, contudo de nada podia experimentar, uma vez que permanecia sob os cuidados convencionados para aquela idade, como bem exposto na embalagem protetora. O tempo passou e nunca interagiu com as outras crianças, da caixa nunca saiu, viveu sempre sob os cuidados do excessivo zelo, o que lhe impôs limites, estes, nunca por ele transpostos. Viveu numa redoma, que, sob o pretexto de protegê-lo dos males do mundo, privou-o de ganhar vida, sabedoria acerca das coisas da existência. Criado em: 04/07/2020 Autor: Flavyann Di Flaff

NA LATA

Depois de um tempo se envolvendo, enlaçando-se, numa troca intensa, ela veio, de chofre, e me disse: − Plantarei o seu amor na lata! Espantado fiquei, porque pensei que a liberdade regesse a relação entre nossos sentimentos. Enfática, retrucou: − Na lata, ele não morrerá! Percebendo que quem ali falava não era a fina flor do sentimento, mas o vaso que a aprisionava, respondi discordante: − Não morre, porém, jamais crescerá! Permanecerá estático, preso às regras do vaso! Assim concluindo, virei-lhe as costas e fugi daquele Mercador de sentimentos, que só me queria como mera decoração.   Criado em: 04/07/2020 Autor: Flavyann Di Flaff

ASSASSINATO DO PORTUGUÊS

Chegara com a cara e a coragem, coisas que em nada lhe ajudaram, pois não chegara a lugar nenhum no espaço socioeconômico. Passados os anos, conseguiu visibilidade entre os seus futuros pares. O idioma o ajudou, já que eram línguas irmãs, não siamesas, porém semelhantes. Se bem que, lá na sua terrinha, não fora um bom aprendiz, o que conseguiu, deu para o gasto. Com o trabalho que conquistou, conseguiu se instalar em um bairro na periferia que ficava a poucas horas de onde trabalhava. Por sua boa feição e carisma, ficou conhecido como galanteador. Uma fama que lhe abriu portas, mas trouxe desafetos, os quais desconhecia. Sempre que podia, quando retornava do trabalho, tomava uma caipirinha com os vizinhos da rua. Todos gostavam de sua companhia e de sua fala estranha, ainda mais por cometer alguns erros gritantes em suas falas, que tanto os faziam rir. Levava tudo na esportiva, pois também gostava daquelas companhias. Certo dia, engraçou-se da vizinha, uma morena linda, chamada R...

RESSURRETO

Quando soube que um doutor fora exposto ao ridículo em cadeia mundial, sentiu-se feliz por ser réu primário em uma sociedade cruel que muito cobra sem nada de bom oferecer. A sua vida não era lá grande coisa, rotina básica de sobrevivente de uma metrópole. Invisível física e socialmente, já se conformara, a ponto de não fazer a mínima questão de ser alguém notável. Era um residente em trânsito. Qualquer lugar que desse para aboletar a sua carcaça cansada se tonava seu novo endereço. Certa vez, conseguiu abrigar-se em um casebre abandonado, lá foi ficando, ficando... até fazer parte do censo demográfico da região. Fez conhecidos e até vizinhos, o que nunca conseguira, já que permanecia poucas horas nos lugares por onde passava. Familiarizado com tudo e com todos, do abandonado fez morada frequentada. Sempre havia quem o requisitasse para uma prosa. Outras portas foram abertas, extasiando o humano que nele existia, mas que fora, brutalmente, transformado em bicho por longos anos de lut...

PREDESTINADO

Não tinha a menor vocação para letrado, quiçá, para ser doutor. No final, para quê? Para ser exposto, julgado, condenado e fuzilado por falsos moralistas em praça pública?! Não! Isso não queria para si, jamais! Preferiu ser mais um na multidão de iletrados de um país, que, no discurso improvisado, elege a educação como a remissão dos deserdados do Estado democrático de direito. Esses que eram, como dito em semelhante palavrório, “o futuro da nação”, cresceram e repassaram seus gênios a outros. Dando seguimento à democrática ignorância. Apesar dos percalços existenciais, aprendeu a ser pragmático, já que a sua sobrevivência dependia disso. Barriga cheia era a sua ideia fixa, meta infernal diária buscada toda via sacra semana de vida. Religiosamente, tiravam do que não tinha a décima parte, imposto pago pela indulgência dada por homens divinos, como forma de livrá-lo da carga pesada de seus pecados. Porém, jamais do fardo das convenções sociais, porque no Estado laico mandam outros, é ...

AVES DE RAPINA

Aquela vila nos confins de um subúrbio qualquer, mais parecia um fim de mundo. Tal era a distância de tudo que se conhece por civilizado, como se por ali só imperasse a lei do mais primitivo instinto. Lugar carente de humanidades romantizadas, que tanto preenchem os discursos dos que se autodenominam os salvadores da pátria. Essas figuras são seres míticos, que só aparecem de quatro em quatro anos, entoando as cantilenas que encantam os apátridas da região, pois o elo invisível entre esses e o Estado, há muito, por este, fora rompido. Abandonados à própria sorte, tornam-se presas fáceis de predadores pseudoaltruístas, redentores da pátria − Verdadeiros alpinistas sociais.   Criado em:  2/7/2020 Autor: Flavyann Di Flaff