Numa tarde singular de maio, o corvo, encoberto pelas sombras dos acontecimentos, vislumbrou dois vultos a confabular segredos de alcova — ensaios de alguma traição. Permaneceu imóvel, observando e ouvindo todo aquele falar confuso, pois, da língua dos homens, nada entendia. Contudo, como se recordasse de um tempo ido, vieram-lhe à memória flashes de quando fora cativo na casa de alguém que, levado por uma superstição, o libertara. Tal lembrança não se deu por ter sido maltratado enquanto prisioneiro, mas por ter ouvido uma sonoridade e sentido um cheiro peculiares à sua memória animal. Não tinha familiaridade com os papagaios — de semelhante, apenas o fato de pertencerem à mesma classe das aves. Mas o período de convivência imposta e contínua fizera-o distinguir aquele som e aquele cheiro específicos, pois representavam o nome de seu carcereiro e o perfume de alguém que muito frequentava aquela casa. Assim, ao ouvir novamente o som e perceber o aroma familiar, compreendeu que se tra...
Liberdade sem autonomia não passa de mera utopia!