Eu, como Ícaro, que, com suas frágeis asas, ousou ir em busca de uma liberdade desobrigada de convenções, mesmo ela tendo custado a sua própria vida, sobrevoei a vastidão de teu coração. Nele, a extrema natureza reflexiva de teus sentimentos me atraiu. A insinuação de reciprocidade era tanta, que não hesitei e pousei nesse lago de águas tranquilas. Ali fiquei, alimentando-me do que proporcionavas. Uma calmaria insuspeita, um ambiente propício à integração de sentimentos. Mas não sei o porquê, fui sentindo um mal-estar, uma inquietação inadequada para o momento, já que não via motivos para tanto. O desassossego não cessou e, aos poucos, fui percebendo que a causa disso era a tua indiferença, que, sorrateira, tomava conta da relação. Não dera fé dela antes, porque estavas sempre presente e isso me proporcionava segurança, porém, o teu distanciamento sentimental, só aumentava. Foi então que me dei conta de que os teus sentimentos refletiram apenas a ilusão de uma reciprocidade, pela qual fui tolamente atraído, como um pássaro que se vê refletido em uma janela de vidro.
Assim, o teu amor, como o Lago Natron,
seduziu-me e fez-me mergulhar em suas águas alcalinas, matando e calcificando o
meu sentimento, conservando e eternizando esse desumano momento em meu ser.
Criado em: 14/6/2020 Autor:
Flavyann Di Flaff

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