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O CICLO INVISÍVEL DA PAIXÃO

 

Certo dia, caminhando pelas ruas da cidade, vi uma rosa florescer. Não foi como mágica, foi um longo processo, o qual acompanhei por meio de inúmeras caminhadas por esse território.

Na primeira vez que passei, a roseira me parecia acanhada, sem disposição aparente para dar rosas. Até pensei que, por estar ali largada, sem um ambiente suficientemente bom, ela não vingaria, quiçá florescer.

Da segunda vez, ela me parecia mais bonita, com ar de quem vivenciara algo inexplicável, inenarrável, só percebido através dos sentidos. A sua aparência era reveladora, dizia-me coisas sobre um amor, mas me mantive sereno, sem a agonia de quem se interessa pelos detalhes das vidas alheias.

Numa terceira vez, um botão surgia frágil por entre os galhos da roseira. Algo que se iniciava sem alarde, cuidadosamente se revelando, como a expressar a novidade por entre as rotinas das gentes.

Na quarta passagem, o botão já se fazia rosa escarlate pujante, denunciando o momento que a roseira vivia. A minha humana percepção dizia que a paixão chegara até a esse baldio rincão, onde a vida não vivia, só sobrevivia. Contagiante ver e sentir essa expressão de vida vívida, retornei ao meu lar com esperança de dias melhores.

Porém, nem tudo são flores, há tempestades, o que abala tanto o concreto quanto o subjetivo, e é nesse campo que entra a paixão. Antes forte, agora, fragilizada. Já não há mais beleza, doçura, certezas, só dúvidas e receios. Então, a rosa antes pujante, mostra-se amarelecida, como a dar sinais de enfraquecimento. De longe, como sempre, torço para que essa fase passe da melhor forma possível.

Passados alguns dias, retornei a fazer a caminhada de outrora. Uma pressa interna me fez acelerar os passos. No fundo, queria ver a roseira, saber de seu estado, como a saber de um ente querido notícias suas. Ingrata surpresa foi não a ver mais naquele terreno, quase nenhum resquício, só a sua presente ausência. Abalado, voltei para casa, perguntando-me para onde vai o sentimento despertado e depois de maltratado, acabado. Depois de murchar e secar, vira adubo para o próximo ou se converte em obstáculo para um novo florescer?

Criado em: 10/6/2026 Autor: Flavyann Di Flaff

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