Houve
um tempo em que a faixa de areia das praias era de domínio público, pois não
existia ainda a coerção hegemônica da privatização desse ambiente natural.
Naquele trecho, entre as habitações e o mar, desfilava toda a diversidade
presente em uma sociedade que exalava humanidade.
Naquele
tempo, era a classe menos favorecida, que, em maioria, frequentava aquele
território livre, enquanto a mais abastarda se enclausurava nos clubes sociais,
com seus salões e piscinas, ambientes estilizados e elitizados.
O
mar lavava a alma do povo simples, aliviando-a do fardo da sobrevivência
diária. Nesse evento de purificação, ajuntavam-se o povo citadino e o interiorano,
em um momento de pura harmonia e diversão. Enquanto o segundo vinha de ônibus
fretado, com almoço pronto nas panelas guardado e a alegria exposta ao sol, o
primeiro, por ter mais familiaridade, parecia não ter mais encanto por aquele
belo lugar.
O
povo interiorano, ao ficar diante do mar, parecia reverenciá-lo. Via-se isso
nas roupas aparentemente inadequadas, como calças, vestidos e camisas, e no receio
respeitoso perante a força e a imensidão das águas. Mas, depois desse ato
solene, pisando na faixa de areia, a criança interna se libertava, e esse lugar
logo se convertia numa extensão lúdica de seus quintais. A felicidade
escancarada nas ações infantis era tanta, que contagiava o povo citadino, que,
ao ver tanta presepada junta, desmanchava-se em gargalhadas, relembrando e voltando
também aos tempos de criança.
Era um tempo em que a mercantilização desprezava as areias e preferia as ruas de paralelepípedos, onde erguia os seus sonhos de alvenaria. Um tempo em que o ir e o vir, nas faixas de areia das praias, era livre, pois não existia ágio cobrado para o seu uso.
Criado
em:
7/12/2025 Autor: Flavyann Di Flaff

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