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Mostrando postagens de setembro, 2025

MERCANTILIZAÇÃO

  Nas esquinas, o microfone era punho cerrado, voz rouca contra o Estado, palavra que queimava como fogo e para os oprimidos era o desafogo.   Hoje, há joias que cintilam mais que denúncias, há carros que roncam mais alto que a fome, há rimas embriagadas só de prazer. É o adeus à marginalização!?   O sistema sorri: Fez da revolta um espetáculo, da dor um refrão vendável, da crítica um eco distante. Um salve para a massificação, a indústria cultural venceu!   Mas ainda há becos onde o rap não se vende, onde a batida insiste em lembrar que a ascensão materialista é efêmera, o luxo é passageiro, e a luta, permanente.   Criado em : 30/9/2025 Autor : Flavyann Di Flaff

PENA

  O incômodo move a pena que descreve a sentença mas antes exibe os argumentos A mão serviçal fiel descreve o momento narra a dor e a angústia de tudo expor sem nada poder fazer − É a impotência da denúncia ante a força do hegemônico Poder.   Criado em : 28/9/2025 Autor : Flavyann Di Flaff

UNIVERSO DUAL

  Em um cenário praiadisíaco, o mar luta contra o rochedo e o rochedo contra o mar. Parece inglória essa peleja, a rocha, imponente, mostra-se soberana ante o indomável mar. Dia após dia, o rebater das águas, como o martelo na bigorna a retinir a indignação que nele pulsa, caleja inúmeras gerações, mas não cessa a realidade Severina. Luta-se para viver, vive-se para lutar! E como o deserto, o mundo e a humanidade possuem, em suas essências, a presença indelével da dualidade.   Criado em : 28/9/2025 Autor : Flavyann Di Flaff

PLANO DIRETOR DO CAOS

  O legislador desenha retas no papel almaço: — Artigo 5º: a cidade será um compasso. O prefeito sorri, afrouxa a norma, e a cidade escorre pela encosta abaixo.   A lei é uma cerca de arame farpado contornando o vazio. O gestor é o operário da tarde que serra um pedaço do arame e vende, ao povo, por um voto, a chave do terreno.   (O terreno é íngreme, molhado, futuro alagado. Mas é um chão. Um não-chão. Um quase.)   E a periferia brota como erva daninha — a mais pura vegetação brasileira — sem esgoto, sem asfalto, sem número na casa. Só com promessa. A promessa é o alicerce que segura a parede de tábuas que cai.   E o gestor chega de carro oficial, pisa na lama, faz cara de pai. — Trago a ordem! — grita, apostemado. E a multidão aplaude o homem que quebrou o compasso e lhes vendeu o mapa do labirinto do descaso.   A lei? Ficou no papel, branca e nobre, como um defunto pronto para o velório. A cidade real, essa pulsa, cresce torta, feita de jeitos e de acert...

PARÁFRASE PÓS-MODERNA

  Para conhecer a si mesmo, comprar-se ao outro não é o melhor caminho.   Não precisa ser adivinho para ver que é fantasia a vida que o outro anuncia, que a comparação é uma farsa e a aparência, trapaça, que à transformação nenhuma levam.   Para conhecer a si mesmo, segue o seu próprio caminho de luz e de sombras, que o aprendizado não será a esmo, transformando-lhe, com sobras, mais um pouquinho.   Criado em : 27/9/2025 Autor : Flavyann Di Flaff

TRANSITÓRIEDADE

  No museu das grandes novidades, uma tela me prendeu a atenção. De olhos fixos nela, fui jogado no limbo do tempo − Lapso imensurável! O presente se fez invisível; a ilusão, presente! E um mundo inexistente se tornou a minha realidade. Quanto tempo preso fiquei, isso não sei! Só com o apagar das luzes da ribalta, libertei-me!   Flavyann Di Flaff      27/9/2025

RAP DECODIFICADO

  QAP — na escuta das ruas, o rap capta o ruído da fome, a frequência da revolta, o silêncio da exclusão!   QRO — aumenta a potência, o grito vira batida, a rima vira denúncia; a palavra, resistência!   QSL — entendido, irmão: O rap traduz o invisível, decodifica o abandono e transmite a esperança!   Criado em : 27/9/2025 Autor : Flavyann Di Flaff

CORRENTES INVISÍVEIS

Viveram para os aplausos, para o tilintar das palmas, para os olhos de vitrine que julgam, medem, consomem.   E sorriram falsos sorrisos, apertaram mãos geladas, ergueram máscaras de ouro em palcos de pó e silêncio.   Mas no fim — quando o eco da multidão se desfaz, quando a sala escurece e só resta o corpo cansado — descobrem o ferro nos pulsos: correntes invisíveis, forjadas por cada olhar buscado.   Não era vida, era servidão travestida de brilho.   E a morte, discreta, apenas confirma: ninguém é livre quando vive acorrentado à validação.   Criado em : 25/9/2025 Autor : Flavyann Di Flaff  

FALÁCIA DO MENOR MAL

  Entre as ruínas do voto, um eco sussurra: “Escolha o menor mal, o menos sujo, o mais brando.” Mas, no fundo, sabemos que o mal é um só, disfarçado de várias caras, vestindo trajes de esperança.   O menor mal? Ilusão cortante, faca que corta sem cortar, afasta sem afastar. No espelho, nada muda, apenas o reflexo de um jogo sujo entre as velhas oligarquias.   Entre os gritos, a apatia floresce: “Pelo menos, não é o pior.” E nos enredamos, como peixes sem água, no jogo do menor mal. Mas o mal, ah, o mal é grande demais para se esconder em comparações!   Somos todos vítimas de uma eleição que não controlamos, escravos de uma escolha que não fazemos por nossa própria decisão, mas pelas mãos de um sistema que vende promessas como quem vende ilusões.   E o menor mal? É só um espelho quebrado em que cada pedaço reflete uma mentira que repetimos, que acreditamos ser nossa verdade. Mas o mal nunca é pequeno, quando o nome dele é silêncio e o preço pago é o bem coletivo....

TRANSPARÊNCIA

  Querem a urna de vidro, o papel carimbado, o povo auditado.   Mas, no plenário, cortinas fechadas, dedos escondidos, caras lavadas.   “Transparência já!”, gritam nas praças. Silêncio cúmplice ressoa nas casas.   O eleitor, nu de segredos; o deputado, coberto de sombras. Quem vigia quem? Quem presta contas a quem?   Numa democracia torta, o discurso é luz; a prática, penumbra.   Criado em : 20/9/2025 Autor : Flavyann Di Flaff

SLOGAN

  A democracia é um voto numa propaganda, a cada dois anos, do TSE. Os princípios fundamentais dela são só encenações num palco, enquanto nos bastidores a realidade é outra.   Somos os filhos dessa podridão, somos laicos religiosos, somos o futuro dessa nação, Geração Nem-Nem.   Os jornais, as conquistas, as indignações do povo são heranças instrumentalizadas para a perpetuação do descaso. As autoridades burlam leis para descredibilizar as instituições perante a grande massa, fazendo-a crer que não tem jeito.   E, assim, a vida segue como antes, saúde, educação e segurança saem da Constituição para serem tema de programas partidários, retórica eleitoreira, engodo de melhora a curto prazo.   Falsa política de Estado, eterna política de governo! A democracia é um voto numa propaganda, a cada dois anos, do TSE.   Criado em : 21/9/2025 Autor : Flavyann Di Flaff

INCERTEZAS

Nem todo olho d’água se torna rio Nem todo rio entorna no mar   Nem toda paixão se torna amor na maioria das vezes é fogo de palha só e das cinzas nada surge só se espalham até desaparecer quando o vento sopra   Criado em : 20/9/2025 Autor : Flavyann Di Flaff  

ENGRENAGENS DO CONSENSO

  O interesse particular — ferrugem privada — veste-se de grito coletivo.   (Não pergunte por quem: o discurso é um espelho que reflete o que não existe!)   Na praça, o megafone fabrica urgências: “Crise!” “Inimigo!” “Progresso!” — Palavras-golpe a soldo do tempo.   O povo (massa de letras desconexas) engole a narrativa como se fosse pão — Mas é vidro moído sob o verniz do paraíso imediato.   E, assim, o jogo se faz: do eu ao nós ao nada.   (Ah, voto moderno: ritual cego em uma democracia de espelhos!)   Criado em : 19/9/2025 Autor : Flavyann Di Flaff

A FORÇA DO BRAÇO

  Diziam os antigos: “com a força do braço se conquista a vida”.   Era o braço do operário, a enxada cavando futuro, a agulha costurando esperança, a caneta rabiscando horizontes.   Era suor, era rotina, era pão repartido depois da luta diária.   Mas alguém torceu o sentido! Transformou o braço em punho, o esforço em imposição, o trabalho em ameaça.   Na roda dos poderosos o braço é músculo, soco, ferramenta de submissão.   E a metáfora, antes canto da dignidade, virou grito de guerra, virou bandeira de violência.   A tudo isso, digo não! A força do braço não está em esmagar, mas em sustentar; não está em ferir, mas em consolar, erguer.   Porque é o braço cansado do pedreiro, da lavadeira, do professor, que realmente conquista o mundo.   Criado em : 12/9/2025 Autor : Flavyann Di Flaff

CAMPO DE TRIGO

  O trigo se ergue, dourado, pleno, sopro da terra que insiste em viver.   No meio da abundância, um corpo se rende. Entre espigas, que falam de pão, uma ausência cresce silenciosa.   O grão se parte, morre para gerar vida; o homem se parte, morre para silenciar a dor.   Há contradição no vento: A seara canta fecundidade, mas a sombra recorta o gesto final.   O campo se enche de futuro, o trigo promete renascer. O corpo, não! Ele escolhe o fim, mesmo quando tudo em volta alude ao recomeço.   E a terra, perplexa, acolhe, ao mesmo tempo, o pão da vida e a ruptura da esperança.   Criado em : 11/9/2025 Autor : Flavyann Di Flaff

PREGADOR

  Como quem prega um cartaz de “Procurado”, pregou o amor no púlpito. Ao concluir o ato, levou, para casa, o julgamento e a condenação, instrumentos que há muito usa e conhece, porém, não os assume,  por achar esse gesto incompatível com a manutenção de sua persona pública, imagem e semelhança da perfeição. Ao confundir moralidade com santidade, autoproclama-se representante do Divino, todavia, pregoeiro que é, profanar é a sua essência. Assim, segue o pregador do Amor! Pregando como quem denuncia um justo. Condenando-o por atos carregados de humanidade, como, há séculos, fizeram certos fariseus, que entregaram o Justo, aos romanos, para ser pregado no madeiro.   Criado em : 7/9/2025 Autor : Flavyann Di Flaff

A VIDA NÃO É FEITA SÓ DE FATOS

A nossa vida são fatos, mas não apenas linhas secas de um diário ou marcas em pedra. São lembranças que se colorem de emoção, cada instante gravado não pela precisão do relógio, mas pela intensidade do que sentimos. O que seria da infância sem o cheiro de pão quente ou o riso que se derrama pela rua? O que seria do amor sem o tremor nas mãos, o coração em descompasso, a memória que insiste em guardar o brilho de um olhar? A vida, em sua essência, é um mosaico de percepções: dor que ensina, alegria que expande, saudade que nos costura ao que já foi. Não nos recordamos apenas do acontecimento, mas também lembramos de como ele nos atravessou, do arrepio, da lágrima, da explosão de esperança ou do peso do silêncio. E, assim, seguimos, colecionando fatos, sim, mas, sobretudo, colecionando o modo como eles nos fizeram sentir. Porque, afinal, somos a narrativa de nossas próprias emoções: uma prosa escrita em carne, sangue e memória, sempre reescrita pela intensidade do coração.   ...