No contexto brasileiro atual, é possível
observar um contraste expressivo entre as expressões “cidadão do bem” e “cidadão de
bem”, cuja diferença ultrapassa a mera escolha de preposição e revela
disputas simbólicas mais amplas. A expressão “cidadão do bem” mantém um sentido tradicional e mais neutro,
empregado para designar aquele que age de acordo com normas sociais e legais,
pertencendo ao conjunto de pessoas consideradas íntegras e corretas. Nesse
caso, o uso da preposição “DO” remete ao pertencimento a um grupo identificado por
práticas efetivamente éticas e responsáveis.
Por outro lado, a expressão “cidadão de bem” adquiriu, nos últimos
anos, um caráter fortemente ideológico. Mais do que indicar uma qualidade
moral, tornou-se um rótulo discursivo utilizado para distinguir um grupo que se
considera moralmente superior ou alinhado a determinados valores políticos e
culturais. Aqui, o “DE” assume função caracterizadora, mas carregada de
subjetividade, funcionando muitas vezes como marcador identitário que legitima
opiniões específicas e, não raro, exclui ou desqualifica grupos que não se
encaixam nesse enquadramento.
Desse modo, a diferença entre as duas expressões não se limita à esfera linguística: revela modos distintos de compreender a cidadania e a moralidade no país. Enquanto “cidadão do bem” descreve comportamentos e condutas reais, “cidadão de bem” constrói uma identidade social que pode ser mobilizada para justificar posições políticas e reforçar divisões dentro da sociedade. Assim, a linguagem mostra-se um instrumento potente na construção de narrativas, disputas simbólicas e percepções sobre quem merece reconhecimento e legitimidade no espaço público.
Criado
em:
20/11/2025 Autor: Flavyann Di Flaff

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